"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

domingo, agosto 07, 2011

Mente vazia, mente tranquila

Monja Coen


Alguns dizem que é preciso esvaziar a mente. Eu pergunto: como esvaziar o que já está vazio?

Há uma história Zen muito interessante. Certo dia um jovem aspirante pediu ao Mestre Zen que aquietasse sua mente. O Mestre disse:

- “Traga sua mente aqui, entregue-a a mim e eu a aquietarei.”

O jovem saiu procurando pela mente. Onde estaria? Seria pensamentos, memórias? Seria silëncios e quietude? Seria sonhos e pesadelos? Seria feita de palavras, conceitos? Seria apenas a massa encefálica, a matéria? O jovem pensava e não pensava. Cada vez que acreditava ter apanhado a mente, percebia que ela fugia, que já estava em outro pensamento, em outra idéia. Que o próprio conceito se desfazia. Cansado, voltou a procurar o Mestre e disse:

- “Senhor, é impossível apanhar a mente.”

O Mestre disse com alegria:

- “Pois então, já está aquietada.”

O jovem se reverenciou em profunda gratidão, pois pela primeira vez compreendia que a mente não é algo fixo e constante, mas flui com o fluir da vida, sem que possa jamais se fixar quer em inquietude ou em silêncio, quer em alegria ou tristeza, quer em iluminação ou delusão.

Outra história do século VII na China foi a seguinte: o abade de um grande mosteiro pediu a seus monges que fizessem um poema no qual expressassem sua compreensão dos ensinamentos de Buda. O Chefe dos Monges, muito querido e respeitado pelos seus mais de mil companheiros, escreveu solenemente:

“O corpo é a árvore Bodhi. A mente é como um espelho brilhante. Cuide para mante-la sempre limpa. Não permitindo que o pó se assente”

Um jovem semi-alfabetizado, que ajudava separando a palha do arroz viu o poema na parede, pediu que alguém o lessse e exclamou:

- “Não é isso”

E pediu a um monge letrado que escrevesse seu poema:

“O corpo não é a árvore Bodhi. A mente não é como um espelho brilhante. Se não há nada desde o princípio. Onde o pó se assenta?”

Este segundo poema reflete a essência dos ensinamentos do Sexto Ancestral da China, o Venerável Mestre Hui-neng e do Zen.

A prática da meditação do Zazen não é para polir o espírito, não é para limpar a mente, não é para esvaziar nada. É tornar-se uno com nossa essência verdadeira, com aquele Eu imenso que contem todos os sentimentos, emoções, percepções, formações mentais, consciência e a forma física.

Retornar à verdade e ao caminho é retornar à vida. Assim falamos em renascer. Deixar morrer idéias abstratas e fantasiosas sobre estar separado do tudo e dos outros e perceber a sabedoria suprema presente em todos os seres, vivenciá-la, tornar-se uno com todos os Budas e Ancestrais do Darma.

Basta perceber que nada é fixo, nada permanente – isto é o vazio. A mente vazia é aberta e flexível. Chora e ri. Pensa e não pensa. Não precisa ser esvaziada – já é vazia. Sendo vazia é clara e iluminada, em constante atividade e transformação.

Apenas escolha com o que alimentá-la. Você mesma(o) é o programa e o programador, o computador e seus acessórios. Cuide-se bem.

Doshin, o mestre zen considerado o Quarto Ancestral da China, disse:


“Todos os ensinamentos de Buda estão centrados na Mente, de onde incomensuráveis tesouros surgem. Todas as faculdades sobrenaturais e suas transformações reveladas na disciplina, meditação e sabedoria são suficientemente contidas em sua própria mente e nunca saem dela. Todos os obstáculos em obter-se bodhi surgem das paixões que geram carma e são originalmente não-existentes. Cada causa e cada efeito é apenas um sonho. Não há mundo triplo a abandonar nem nada a ser procurado. A realidade interna e a aparência externa do ser humano e das mil coisas são idênticas. O Grande Caminho é ilimitado e transcende a forma. Livre de pensamento e de ansiedade. Agora você entendeu o ensinamento de Buda. Não há nada faltando em você e você não é diferente de Buda. Não há outra maneira de obter o estado de Buda além de permitir sua mente ser livre em si mesma. Não contemple nem tente purificar sua mente. Deixe que não haja apego nem aversão, ansiedade nem medo. Esteja completamente aberta e absolutamente livre de todas as condições. Esteja livre para ir em qualquer direção que queira. Não aja para fazer o bem, nem procure o mal. Quer ande ou fique, sente ou deite, e seja o que for que aconteça a você, tudo são as maravilhosas atividades do Grande Iluminado. Tudo é alegria, livre de ansiedade – isto é chamado Buda.”


É preciso entender que estamos falando do ponto de vista do absoluto, de quem percebeu e se tornou o próprio corpo de Buda, que são em si os Preceitos, a Disciplina, a Meditaçao e a Sabedoria. Alguns podem interpretar erroneamente que fazer qualquer coisa é ação iluminada. Só se é Buda quando há a verdadeira compreensão do Caminho, que é tornar-se o Caminho de Sabedoria e Compaixão.

Não é ser bonzinho, nem querer ser mau. É tornar-se o próprio Bem.

Mente vazia e livre, clara e ativa em tranqüilidade, tranqüila em atividade.

Mãos em prece.

Possam todos os seres se beneficiar.



__________________________________
*Nota: Bodhi - do Sânscrito, iluminação
Visitem: www.monjacoen.com.br

quinta-feira, agosto 04, 2011

Não existe crescimento espiritual




"Destrua o desejo de crescimento"...

Parece absurdo, pois se você destruir todo o desejo de crescimento, que necessidade haverá então de crescer para o divino? Como alguém poderá então alcançar a verdade, tornar-se iluminado? De que servirá a meditação e todo este rebuliço? Precisamos mergulhar profundamente neste sutra.

Destrua o desejo de crescimento. Há dois tipos de crescimento. Um, a respeito do qual você pode fazer algo; e outro, a respeito do qual você nada pode fazer. Para um, seu esforço é necessário; para o outro, a ausência de esforço é necessária. O crescimento espiritual é do segundo tipo. Seu esforço não será de nenhuma ajuda; apenas criará barreiras. Você nada pode fazer quanto ao crescimento espiritual. A única coisa que você pode fazer é entregar-­se, e isso é um não-fazer.

Você pode apenas fazer uma coisa: permitir que o divino aja em seu interior. Pode simplesmente cooperar; isso é tudo. Pode simplemente flutuar, não é necessário nadar - um profundo deixar acontecer. É este o significado de "Destrua o desejo de crescimento..."

Cresça como cresce a flor, inconscientemente, mas ansio­samente desejosa de abrir sua alma ao ar. Assim você também deve compelir sua alma para se abrir ao eterno. Mas é necessário que seja o eterno! Deve ser o eterno quem induz sua força e beleza a se expandirem, não o desejo de crescimento. Pois, no pri­meiro caso, você se desenvolve na exuberância da pureza, e no outro, você se torna insensível pela paixão impetuosa pelo desenvolvimento pessoal. Repetirei: deve ser o eterno quem induz sua força e beleza a se expandirem, não o desejo de crescimento - porque todo desejo é um obstáculo, até mesmo o desejo de alcançar o divino; todo desejo é uma escravidão, mesmo o desejo de ser libertado. O desejo, como tal, é o problema; portanto você não pode desejar o divino. Isso é contra­ditório. Você só pode desejar o mundo, não pode desejar o divino; porque o desejo é o mundo, o desejo é samsara. Você não pode desejar moksha.

Quando você está num estado de não-desejo, moksha acontece a você; quando você está num estado de ausência de desejo, a liberação acontece a você, o divino acontece a você. Permita que o divino gere tudo o que está oculto em você. Não busque o crescimento. Entregue-se, para que o crescimento aconteça. O crescimento ocorrerá, mas não através de seu esforço, e sim, de sua própria graça. Virá por si mesmo."
- OSHO

terça-feira, agosto 02, 2011

Notícias de lá


Marcelo Ferrari


"Trago notícias de lá.
Lembra de lá?
Lá onde lá não existe?
Lá onde lá não importa?
Lá de onde nunca saímos?
Lá pra onde estamos voltando?
Lembra de lá?

Trago notícias de lá.
Lá está se preparando pra festa:
fogos sem artifício
doce de batata doce
musica das esferas.
Pode ouvi-la?

Trago notícias de lá.
Lá todos contam os dias
pro dia do nosso reencontro.
Lá bem te quer
Lá bem nos quer
Lá é só bem querer.

Trago notícias de lá.
Lá acabou a travessia.
Lá acabou o inverno.
Lá o amor transformou
ralo em chafariz.
Lá as lágrimas estão doces.
Pode senti-las?

Trago notícias de lá.
Aqui é lá batendo na porta.
Lembra de lá?
Normal estranhá-la.
Faz tempo que você
esqueceu de lá.

Trago notícias de lá.
Enfim: nós."

sábado, julho 30, 2011

Religião vs. Espiritualidade




A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma.
A religião é para os que ainda estão despertando.
A espiritualidade é para os que já estão despertos.
A espiritualidade é para todos. A religião é apenas um modo de desenvolvê-la, como vários outros modos que existem fora de religiões.
A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados. A religião pode ser uma guia para o encontro do mestre interno e a libertação da necessidade de quem diga quem sou, prá onde vou e como devo viver minha vida.
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
A espiritualidade nos coloca em contato conosco e nosso Deus interior,com plena atenção e consciência.
A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.
A espiritualidade é um estado de consciência que não precisa de regras, apenas é. Só é possível conhecer por meio da experiência de estar nesse estado.
A religião ameaça e amedronta.
A espiritualidade lhe dá Paz Interior.
A religião fala de pecado e de culpa.
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro".
A religião promete para depois da morte.
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.
A religião é a fase da procura de Deus.
A espiritualidade é para os que já descobriram o nosso Deus Interior. Encontrar o Deus interno permite compreender e aceitar a espiritualidade que já existe em todos.
A religião reprime tudo, te faz ser bom por medo.
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiramente bom!
A espiritualidade ilumina a consciência e transforma o ser.
A religião não é Deus.
A espiritualidade é Tudo, e portanto é Deus. A espiritualidade é Deus.
A religião cria.
A espiritualidade descobre.
A religião não indaga nem questiona.
A espiritualidade questiona tudo.
A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é Divina, sem regras.
A religião é causa de divisões.
A espiritualidade é causa de União.
A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade você tem que buscá-la.
A espiritualidade é experimentada por meio de práticas introspectivas, pois já existe em nós.
A religião segue os preceitos de um livro sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.
A espiritualidade é sagrada em todos os seres e tudo o que existe no universo.
A espiritualidade é amor e paz.
A religião faz viver no pensamento.
A espiritualidade faz Viver na Consciência.
A religião se ocupa com fazer.
A espiritualidade se ocupa com Ser.
A religião alimenta o ego.
A espiritualide nos faz Transcender.
A religião é adoração.
A espiritualidade é Meditação.
A religião sonha com a glória e com o paraíso.
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
A religião vive no passado e no futuro.
A espiritualidade vive no presente.
A religião enclausura nossa memória.
A espiritualidade liberta nossa Consciência.
A religião crê na vida eterna.
A espiritualidade nos faz conscientes da vida eterna.

(Autor desconhecido)

quarta-feira, julho 27, 2011

"E vós, quem dizeis que eu sou?"

Eric Butterworth

Jesus uma vez perguntou a seus discípulos (Mt. 16:13-17): “Quem dizem os homens que é o Filho do homem?” Eles responderam: “Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas”. Jesus disse-lhes: "E vós, quem dizeis que eu sou?”. Pode-se imaginar o silêncio constrangido dos discípulos confusos quanto ao seu significado e buscando dentro de si uma resposta. E foi Pedro quem corajosamente respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.” E Jesus disse-lhe: “Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas meu Pai que está nos céus.”

O ponto a ser destacado aqui é que não importa quem estamos avaliando, realmente não podemos saber sobre o homem por meio do nosso conhecimento da sua origem ou pela análise intelectual do seu caráter. A única avaliação correta de qualquer homem é em termos daquilo que ele pode ser, do seu potencial. Jesus está dizendo a Pedro: “Você não chegou a essa resposta através da racionalização da minha personalidade, da minha aparência física, ou por qualquer coisa através do sentido da observação. Teve uma revelação interior da divindade dentro de mim. Você viu o Cristo não pela visão, mas pelo esclarecimento.”

Vamos ser cuidadosos neste ponto, pois podemos perder o sentido do princípio da Divindade do Homem. Isto tem sido usado com frequência para provar que Jesus era o Cristo de Deus, que Ele era Deus que veio de “lá” para viver um tempo como homem. Observando novamente esta passagem, notaremos que é Pedro e não Jesus que está sendo louvado. Jesus comprovou as Suas capacidades divinas muitas vezes vendo o coração das pessoas e revelando as suas grandezas inatas. Porém, agora é Pedro quem tem um clarão de percepção espiritual e que vê além da pessoa para o verdadeiro - para o divino em Jesus. Pedro revela a sua própria divindade somente pelo fato de ver a divindade em Jesus.

Jesus fica feliz com a evidência de esclarecimento espiritual. E diz: “Eu digo-te que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minhaIgreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu tedarei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares sobra a terraserá ligado também nos céus; e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também nos céus” (
Mt. 16:18,19).

A confusão estabelecida quanto a esta passagem foi a responsável pelo desenvolvimento da Igreja cristã. Inequivocamente, aceitamos que Jesus está dizendo: “Pedro, estou orgulhoso de ti e por isso erguerei a minha organização eclesiástica sobre ti, tu serás o líder.” Literalmente tem sido aceito que a Igreja de São Pedro, em Roma, foi construída sobre os ossos sepultados de Pedro.

O que Jesus realmente pensava? Primeiro, devemos lembrar que o nome do homem a quem chamamos Pedro era na verdade Simão. “Pedro” foi um apelido utilizado somente após este incidente. A primeira vez em que foi usado foi quando Jesus disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja.” Ele não estava dando um nome ao homem, mas louvando a qualidade apresentada pelo homem. A qualidade era petros, termo semelhante a “fé”, significando a firmeza semelhante à da rocha.

Jesus está elogiando Simão (Pedro) por ser firme e perceptivo. E diz que sobre essa percepção é que a Igreja será construída. Lemos na palavra “Igreja” tudo o que isto tem significado através dos séculos desde então. Porém naquela época não havia precedente. A palavra“Igreja” significava “escolhidos”. Sabendo que Jesus sempre falava dos pensamentos mais do que dos fatos, podemos ver que Ele estava se referindo a um aglomerado de idéias nas consciência espiritual. Paulo deve ter sentido este significado, pois disse: “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” (I Cor.3:16).

A “Igreja” que Jesus fala em construir é a vida interior do homem. Ele diz que para construir esta vida interior devemos desenvolver a percepção para nos vermos e aos outros sob o contexto da Divindade do Homem. Na verdade, parece evidente que Jesus estava dando a Simão (Pedro) algo para o qual viver. Ele tinha o caráter semelhante a uma rocha. Era o mais impetuoso e instável de todos os discípulos. Provavelmente Jesus teve problemas com ele. Porém, com este clarão de insight, “Pedro” deu evidências de seu potencial interior. Jesus ficou feliz e orou para que ele construísse a sua consciência de fé e estabilidade. Passagens posteriores mostram que esta confiança surtiu algum efeito em Pedro, mas finalmente ele demonstrou tudo o que Jesus esperara dele e mais. Visto desta forma, isso traz esperanças paravocê e para mim.


Do livro “Descobrindo seu poder interior.”

Comentário:

Esse texto lembra estas passagens bíblicas, que dizem mais ou menos assim (transcrevo apenas o sentido das passagens):

1) "Os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem jamais sentiu o que Deus tem preparado para nós, desde a fundação dos tempos".

2) "O que é espiritual só pode ser discernido espiritualmente, de Espírito para Espírito."

3) "A mente humana é a inimizade contra Deus".

4) "Temos a Mente de Cristo".


Agora, analisando o texto postado,

Quando Jesus perguntou aos discípulos quem pensavam eles que ele (Jesus) era, quase todos estavam vendo-o segundo a mente humana ou carnal, que é a "inimizade contra Deus". Exceto Pedro, que disse: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". Pedro enxergou Jesus com outros olhos - olhos espirituais que revelam a visão espiritual. Jesus não foi discernido por Pedro de "mente para Espírito", mas de "Espírito para Espírito". Assim, o que permitiu a Pedro ver quem era Jesus? Foi a Mente de Cristo, que já estava nele presente "desde antes da fundação dos tempos". E a condição básica - o detalhe mais importante desta passagem que deve ser compreendido, e para o qual devemos atentar - é que Pedro teve de revelar sua própria divindade a fim de reconhecer a divindade em Jesus. Somente Deus em nós reconhece Deus no outro - o mesmo Deus em nós reconhece a Si mesmo no outro. Isso é apenas mais uma evidência que aponta para o fato de que "somos todos um só".

A Bíblia revela que "nós não recebemos o espírito do mundo que só vê as coisas do mundo, mas que foi-nos dada a Mente de Cristo para que pudéssemos dircernir tudo o que nos foi dado gratuitamente por Deus." E essa sagrada Escritura completa: "não recebemos a mente do mundo que só vê as coisas do mundo, mas temos a mente de Cristo." Nós já a temos agora mesmo, neste instante. De modo que não precisamos "desenvolvê-la" ou "despertá-la".

Enquanto os discípulos olhavam para Jesus com a "mente carnal", Jesus era o João Batista, o Jeremias, o Elias, ou algum dos profetas. Porque é assim que a mente humana vê, limitadamente, sempre com base "na carne e no sangue", ou seja, com base no mundo. Por isso é dito que a "mente carnal é a inimizade contra Deus". Por outro lado, a Mente de Cristo nos permite ver aquilo que foi "preparado para nós desde a fundação dos tempos", cujos "olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem jamais sentiu". Ao perceber que Pedro teve visão, devido a sua resposta diferenciada, Jesus disse-lhe: "Bem aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não lhe revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está no céus.".

Jesus disse: "Tende olhos, mas não vedes?"... "Quem me vê a mim, vê o Pai que me enviou". Mas a visão a que Jesus se refere exige a atuação da Mente de Cristo (que já é a nossa!), e não da mente humana do personagem (esta não é a nossa, mas a do personagem, apenas). A percepção que advém da Mente de Cristo é a pedra angular a que Jesus fez menção, quando disse a Simão Barjonas: "Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja". Está claro, então, que a percepção iluminada a partir da qual Pedro respondeu a pergunta feita por Jesus é a própria base, o fundamento da mensagem de Cristo. Aos olhos da Mente de Cristo, a mente carnal (que é a inimizade contra Deus) não existe. Mas prefiro deixar o aprofundamento dessa questão para uma outra oportunidade.

O personagem, de si mesmo, nada pode fazer. Não pode perceber espiritualmente/consciencialmente por si mesmo. Quem percebe é o Pai, a Consciência do Ser nele. Por isso, a Bíblia ilustrativamente diz: "Ficai na cidade, até que do Alto sejais revestidos de poder". O homem precisa ser paciente e humilde; deve buscar, cumprir com a sua parte, e esperar (esse é o "ficai na cidade"). O homem não pode, por si mesmo, adquirir tal poder, assim ele o atinge/recebe não por esforços próprios, mas pela Graça (e isso é o "até que do Alto sejai revestidos de poder"). Esse "poder" é a percepção que advém da Consciência do Ser (que habita o Alto), e que a mente humana do personagem é impotente e incapaz de perceber. A revelação vem do Alto. Quem percebe é a Consciência do Ser em nós, o Ser que realmente somos. A percepção é de Ser para Ser. Jamais se comunica com a mente dos personagens, Porque o Ser é tudo o que há.


domingo, julho 24, 2011

O verdadeiro Lar




Bem-Amado,

O Ser é o seu verdadeiro Lar.
Corpo e mente assumiram uma jornada,
mas o verdadeiro Lar é o seu próprio Coração.
É infinito e, portanto, onde quer que você vá,
você está sempre em casa!

Om,

Mooji.

Expert Author Jason Campbell

sexta-feira, julho 22, 2011

Quem é você? - Eu Sou

Novos vídeos do Mooji, com legenda
Mooji


Pergunta: Mooji, você sempre lança a pergunta "Quem é você?" na nossa cara... Então, agora eu lhe pergunto: "Quem é você?"

Mooji: Eu sou o atemporal, o imutável, o Real.

P: De onde você veio?

M: De lugar nenhm.

P: Mas você está aqui!

M: Sim, sempre assim.

P: Por que você veio?

M: A pergunta "por que?" é irrelevante. Eu nunca vim, eu nunca irei; eu sou a existência além de qualquer razão ou causa; Eu Sou, além da mente e de seu mundo, assim como você.

P: Mas eu posso vê-lo, sentado aqui perante mim!

M: Sim, antes de "mim", eu sou. O que você vê não é o que eu sou.

P: Eu não entendo...

M: Você não pode entender a Verdade, você pode apenas conhecê-la, realizando que você é a própria Verdade. Não pense que a mente o ajudará. O papel dela é lhe confundir, é provocar dúvidas em você - um trabalho que ela faz muito bem. [Risadas]

A única coisa é que ela precisa da sua cooperação para enganá-lo - um trabalho que você faz muito bem [Risadas]

É um jogo, e é por isso que é chamado de leela - o jogo de Deus. É a sua própria Maya brincando com você.

Pensamentos vêm e vão; o Ser, não. Você testemunha os pensamentos. Você é a tela imutável na qual os pensamentos são percebidos, e você é quem os percebe também - essa é a charada da existência.

Enquanto você se identificar com a mente-ego, você não percebe o óbvio - a sua própria presença sem forma.

P: Como eu posso encontrar esta presença da qual você está falando?

M: Ela não pode ser "encontrada". Ela apenas é, e você já é isso. Pode você traçar uma linha entre você e o Ser? Encontre primeiro aquele que tenta encontrar alguma coisa, e então veja se ainda existe algo para encontrar.

P: Mas, na verdade, eu não sei o que é "presença sem forma"!

M: Claro que você não sabe! Ela também não pode ser "conhecida". Quem é que está buscando? O que é isso que quer saber?

P: Eu!

M: Certo, e o que é "eu"? Apresente-se.

P: Tudo isso: meu corpo, minha mente, meus pensamentos, desejos também, minha alma...

M: Quem ou o que diz isso? Quem vê isso? Antes que elas alcançassem sua boca, de onde é que essas palavras emergiram? Você me dá uma lista de coisas, você diz: "meu" corpo. Eu digo: corpo de quem? Ele lhe pertence, assim como o seu carro ou suas roupas? Você também diz: "minha mente", não diz? Significando que é sua, não você. Até mesmo "minha alma" - você diz: "minha alma está se deleitando" ou "minha alma estava pesada com mágoas..."

A alma está mudando; você permanece por trás, você testemunha o que acontece em sua alma. Então, quem é você?

P: Eu, eu mesmo...

M: Anterior aos pensamentos e às palavras, anterior ao seu surgimeto, aquilo que nem os precede nem os segue - o que é aquilo?

Não toque neste "eu". Isso é apenas uma palavra, apenas um conceito. Olhe. Não pense. Permaneça em silêncio. Observe.

P: Nada... Eu vejo absolutamente nada (nothing)!

M: "Nada" (No thing) está correto. "Nada" querendo dizer sem forma, além da forma, além do tempo. Você não é uma "coisa"; como poderia ser? Qualquer coisa, mental ou física, aparece, flutua ou se move, através da sua consciência. E nós somos a testemunha desta consciência, do seu conteúdo e atividade. Você pode confirmar isso?

P: Sim... sim... então eu sou o mesmo que você?

M: Sim. Apenas remova o pensamento "o mesmo que".

P: Eu sou você.

M: Sim. [Pausa] E que tal apagar o "você"? Você pode fazê-lo?

P: [Longo silêncio]

M: Quando você disse "eu sou você", a palavra "você" se refere a Mooji? Você se refere a este corpo sentado nesta cadeira? [Mooji sacode seu corpo como se fosse um boneco] Este corpo é Mooji? Quem é Mooji?

Este corpo não é diferente daquele corpo ou todos os outros corpos [apontando para as pessoas na sala]. Ele é feito dos elementos e é comida elementar. Os vermes ou o fogo estão esperando por ele. É isto que você é?

Muitos místicos dizem estas coisas: "Tudo é Um, Eu sou você, você é eu, sem diferença...". Mas se não é a sua experiência, são apenas palavras para você, palavras vazias, e isto pode ser sentido imediatamente. É melhor não dizer nada, ficar quieto.

Então, novamente, o que é você?

P: Eu sou.

M: Sim, muito bem. Agora solte o "eu sou".

[Longo silêncio]

P: Quem é que vai apagar/soltar o "eu sou"?

M: Você é que me diz!

[O questionador sorri]

P: Se eu não sou nada, então nada apaga coisa nenhuma, o apagar acontece.

M: De fato. Muito verdadeiro. Agora, nem se preocupe com "apagar" e "acontecer". Não pegue nenhuma arrogância. Não pegue nenhuma ideia. Não pegue absolutamente nada.


quarta-feira, julho 20, 2011

O Verdadeiro Guru


Nisargadatta Maharaj


Pergunta: Outro dia você disse que na raiz de sua realização estava a confiança em seu Guru. Ele lhe assegurou que você já era a Realidade Absoluta e nada mais havia a fazer. Você confiou nele e deixou por isso mesmo, sem tensão, sem esforçar-se. Minha pergunta agora é: sem a confiança no Guru, você teria se realizado? Afinal de contas, o que você é, você é, confie sua mente ou não. A dúvida obstruiria a ação das palavras do Guru tornando-as inoperantes?

Maharaj: Você o disse – elas se tornariam inoperantes – por um tempo.

P: E o que aconteceria para a energia, ou para o poder das palavras do Guru?

M: Permaneceria latente, não manifestada. Mas toda a pergunta está baseada em um mal-entendido. O mestre, o discípulo, o amor e a confiança entre ambos, tudo isto é um fato, não tantos fatos independentes. Cada um é parte do outro. Sem amor e confiança, não haveria nem Guru nem discípulo, nem relação entre eles. É como pressionar um interruptor para acender uma lâmpada elétrica. É porque a lâmpada, os fios, o interruptor, o transformador, as linhas de transmissão e a central de força formam um todo único que se obtém a luz. Se faltasse algum desses fatores, não haveria luz. Você não deve separar o inseparável. As palavras não criam fatos; elas os descrevem ou os distorcem. O fato sempre é não verbal.

P: Eu ainda não entendo; as palavras do Guru podem não se realizar ou, invariavelmente, serão provadas como verdadeiras?

M: As palavras de um homem realizado nunca fracassam em seus propósitos. Elas esperam pelas condições corretas, o que pode levar algum tempo, e isto é natural, visto que há uma estação para semear e uma estação para colher. Mas a palavra de um Guru é semente que não pode perecer. Certamente, o Guru deve ser um Guru real, alguém que esteja além do corpo e da mente, além da própria consciência, além do tempo e do espaço, além da dualidade e da unidade, além da compreensão e da descrição. As boas pessoas que leram muito e têm muito a dizer podem ensinar-lhe muitas coisas úteis, mas elas não são os Gurus reais cujas palavras invariavelmente se realizam. Elas também podem dizer-lhe que você é a própria realidade suprema, mas o que resulta disto?

P: Não obstante, se por alguma razão acontecer que neles confie e obedeça, serei eu o perdedor?

M: Se você for capaz de confiar e obedecer, logo encontrará o seu Guru verdadeiro, ou melhor, ele o encontrará.

P: Todo conhecedor do Ser se converte em um Guru, ou alguém pode ser um conhecedor da Realidade sem ser capaz de levar os outros a ela?

M: Se você sabe o que ensina, pode ensinar o que sabe. Aqui a capacidade de ver e a capacidade de ensinar são uma coisa só. Mas a Realidade Absoluta está além de ambas. Os Gurus auto-designados falam de maturidade e esforço, de méritos e realizações, de destino e graça; tudo isso são meras formações mentais, projeções de uma mente viciada. Em lugar de ajudar, obstruem.

P: Como posso decidir a quem seguir e de quem desconfiar?

M: Desconfie de todos até que esteja convencido. O verdadeiro Guru nunca o humilhará nem o afastará de você mesmo. Constantemente, ele o levará de volta ao fato de sua perfeição inerente e o encorajará a buscá-la dentro de si mesmo. Ele sabe que você não necessita de nada, nem mesmo dele, e nunca se cansa de lembrá-lo a você. Mas o Guru auto-designado está mais interessado nele mesmo que em seus discípulos.

P: Você disse que a realidade está além do conhecimento e do ensinamento do real. O conhecimento da realidade não é o próprio supremo, e o ensinamento, a prova de tê-lo alcançado?

M: O conhecimento do real, ou do eu, é um estado da mente. Ensinar outro é um movimento na dualidade. Eles dizem respeito à mente apenas. Sattva é igualmente um guna.

P: O que é real então?

M: Aquele que conhece a mente como não realizada e realizada, que conhece a ignorância e o conhecimento como estados mentais, é o real. Quando dão a você diamantes misturados com cascalho, você pode encontrar ou não os diamantes, mas o que importa é a visão. Onde estão o cinzento do cascalho e a beleza do diamante, sem o poder para ver? O conhecido é apenas uma forma e o conhecimento, apenas um nome. O conhecedor é somente um estado da mente. O real está além.

P: Certamente, o conhecimento objetivo e as ideias das coisas, e o autoconhecimento, não são um e a mesma coisa. Um necessita de um cérebro, o outro não.

M: Para o propósito de discussão, você pode arranjar palavras e dar-lhes significado, mas o fato que persiste é que todo conhecimento é uma forma de ignorância. O mais preciso mapa é ainda apenas papel. Todo conhecimento está na memória; ele é apenas reconhecimento, enquanto a realidade está além da dualidade de conhecedor e conhecido.

P: Então mediante o que se conhece a realidade?

M: Quão enganadora é a sua linguagem! Inconscientemente, você supõe que a realidade também é acessível através do conhecimento. E então você introduz um conhecedor da realidade além da realidade! Compreenda que a realidade não necessita ser conhecida para ser. A ignorância e o conhecimento estão na mente, não no real.

P: Se não existe o conhecimento do real, então como eu o alcanço?

M: Você não necessita estender a mão para o que já está com você. Seu próprio estender a mão o faz perdê-lo. Abandone a ideia de que não o encontrou e simplesmente deixe-o vir ao foco da percepção direta, aqui e agora, removendo tudo o que é da mente.

P: Quando tudo o que pode desaparecer desaparece, o que resta?

M: O vazio permanece, a Consciência permanece, a pura luz do ser consciente permanece. É como perguntar sobre o que fica em um quarto quando se retiram todos os móveis. Fica um quarto mais aproveitável. E, mesmo quando as paredes são derrubadas, o espaço permanece. Além do espaço e do tempo está o aqui e o agora da realidade.

P: A testemunha permanece?

M: Enquanto há consciência, sua testemunha também está ali. As duas aparecem e desaparecem juntas.

P: Se a testemunha também é transitória, por que se lhe dá tanta importância?

M: Simplesmente para quebrar o encanto do conhecido, a ilusão de que apenas o perceptível é real.

P: A percepção é primária, a testemunha é secundária.

M: Este é o cerne da questão. Enquanto você acredita que só o mundo exterior é real, você permanece seu escravo. Para libertar-se, sua atenção deve ser levada ao ‘Eu sou’, a testemunha. Certamente, o conhecedor e o conhecido são um, não dois, mas, para quebrar o encanto do conhecido, o conhecedor deve ser trazido à frente. Nenhum dos dois é primário, ambos são reflexos na memória da experiência inefável, a qual é sempre nova e sempre no agora, intraduzível, mais rápida que a mente.

P: Senhor, eu sou um humilde buscador, errando de Guru em Guru em busca da liberação. Minha mente está doente, ardendo de desejo, gelada de temor. Meus dias passam rapidamente com o vermelho da dor e com o cinza do tédio. Minha idade avança, minha saúde decai, meu futuro é escuro e pavoroso. Nesse ritmo, viverei na aflição e morrerei em desesperação. Há alguma esperança para mim? Ou cheguei tarde demais?

M: Não há nada errado em você, mas as idéias que tem sobre si mesmo são totalmente incorretas. Não é você quem deseja, teme ou sofre, mas a pessoa construída sobre o alicerce de seu corpo pelas circunstâncias e influências. Você não é aquela pessoa. Isto deve ser claramente estabelecido na mente e nunca perdido de vista. Normalmente, requer um prolongado sadhana, anos de austeridades e meditação.

P: Minha mente é débil e vacilante. Não tenho nem a força nem a tenacidade para fazer o sadhana. Meu caso é sem esperança.

M: Em certo modo, o seu é um caso muito esperançoso. Há uma alternativa ao sadhana, que é a confiança. Se você não pode ter o convencimento nascido de uma busca frutífera, então aproveite minha descoberta, a qual anseio compartilhar com você. Eu posso ver com a maior claridade que você nunca esteve, nem está, nem estará separado da realidade, que você é a plenitude da perfeição aqui e agora e que nada pode privá-lo de sua herança, do que você é. Você não é de forma alguma distinto de mim, apenas não sabe disto. Você não sabe o que você é e, portanto, imagina ser o que você não é. Daí os desejos e medos e o desespero devastador. E uma atividade insensata para escapar deles.

Confie em mim e viva mediante esta confiança. Eu não o induzirei a erro. Você é a Realidade Suprema além do mundo e de seu criador, além da consciência e de sua testemunha, além de todas as afirmações e negações. Recorde-a, pense-a, atue de acordo com ela. Abandone todo o sentido de separação, veja-se em tudo e atue em concordância. Com a ação, chegará a felicidade e, com a felicidade, a convicção. Apesar de tudo, você duvida de você mesmo porque está aflito. A felicidade natural, espontânea e duradoura, não pode ser imaginada. Ou ela existe ou não existe. Uma vez que comece a experienciar a paz, o amor e a felicidade, os quais não necessitam causas exteriores, todas as suas dúvidas se dissolverão. Somente compreenda bem o que lhe disse, e viva por isso.

P: Você está me dizendo que viva mediante a recordação?

M: Você está vivendo pela recordação de qualquer modo. Estou lhe pedindo meramente que substitua as velhas recordações pela recordação do que eu lhe disse. Do mesmo modo que agiu sobre suas velhas memórias, aja de acordo com o novo. Não tema. Durante algum tempo, é inevitável que haja conflito entre o velho e o novo, mas se você se puser resolutamente do lado do novo, a luta acabará logo e você compreenderá o estado sem esforço de ser o que é, de não ser enganado por desejos e temores nascidos da ilusão.

P: Muitos Gurus têm o costume de dar sinais de sua graça – seus panos de cabeça ou seus bastões, ou a tigela de mendigo, ou a veste, transmitindo ou confirmando assim a autorrealização de seus discípulos. Eu não vejo valor em tais práticas. O que se transmite não é a autorrealização, mas a autoimportância. De que serve que nos digam algo muito lisonjeiro, mas não verdadeiro? Por um lado você me previne contra os muitos autointitulados Gurus e, por outro, quer que confie em você. Por que você pretende ser uma exceção?

M: Não lhe peço que confie em mim. Confie em minhas palavras e recorde-as; eu quero sua felicidade, não a minha. Desconfie daqueles que colocam uma distância entre você e seu ser verdadeiro e se ofereçam como intermediários. Eu não faço nada parecido. Nem sequer faço alguma promessa. Meramente digo: se você confia em minhas palavras e as põe à prova, descobrirá por si mesmo quão absolutamente verdadeiras são. Se você pede uma prova antes de arriscar-se, só posso dizer-lhe: eu sou a prova. Eu confiei nas palavras de meu mestre e as mantive em minha mente, e achei que ele tinha razão, que eu era, sou e serei a Realidade Infinita, abarcando tudo, transcendendo tudo.

Como você disse, você não tem nem o tempo nem a energia para práticas prolongadas. Ofereço-lhe uma alternativa. Aceite minhas palavras em confiança e viva de novo, ou viva e morra na aflição.

P: Parece demasiado bom para ser verdade.

M: Não se deixe enganar pela simplicidade do conselho. Muito poucos são os que têm a valentia de confiar – os inocentes e os simples. O amanhecer da sabedoria é saber que você está prisioneiro de sua mente, que vive em um mundo imaginário de própria criação. A seriedade consiste em não querer nada dele, em estar pronto a abandoná-lo inteiramente. Só tal seriedade, nascida do verdadeiro desespero, fará você confiar em mim.

P: Não sofri o bastante?

M: O sofrimento o embotou, incapacitando-o de ver sua enormidade. Sua primeira tarefa é ver a dor em você e ao seu redor; a seguinte é desejar intensamente a liberação. A própria intensidade do desejo o guiará; não necessita outro guia.

P: O sofrimento me tornou insensível, indiferente inclusive ao próprio sofrimento.

M: Talvez não tenha sido a dor, mas o prazer que o fez insensível. Investigue.

P: Qualquer que seja a causa, eu estou embotado. Não tenho nem vontade nem energia.

M: Oh, não! Tem o suficiente para dar o primeiro passo. E cada passo gerará suficiente energia para o seguinte. A energia vem com a confiança e a confiança vem com a experiência.

P: É correto trocar de Guru?

M: Por que não trocar? Os Gurus são como marcos no caminho? É natural seguir adiante, de um a outro. Cada um indica a direção e a distância, enquanto o sadguru, o Guru eterno, é o próprio caminho. Uma vez que compreenda que o caminho é a meta e que você sempre está no caminho, não para alcançar uma meta, mas para apreciar sua beleza e sua sabedoria, então a vida deixa de ser uma tarefa e se torna natural e simples, um êxtase em si mesma.

P: Não há então necessidade de adoração, de orar, de praticar Ioga?

M: Um pouco de varredura, lavagem e banho diário não pode causar dano. A autoconsciência diz, a cada passo, o que é necessário fazer. Quando tudo está feito, a mente permanece quieta.

Agora você está em estado de vigília, uma pessoa com nome e forma, alegrias e penas. A pessoa não existia antes que você nascesse, nem existirá depois de sua morte. Em vez de lutar com a pessoa para convertê-la ao que não é, por que não vai além da vigília e deixa totalmente a vida pessoal? Não significa a extinção da pessoa; apenas significa vê-la na perspectiva correta.

P: Uma pergunta mais. Você disse que antes de nascer eu era um com o puro ser da realidade; se foi assim, quem decidiu que eu deveria nascer?

M: Na realidade você nunca nasceu, nem nunca morrerá. Mas agora imagina que você é, ou tem um corpo, e pergunta o que produziu este estado. Dentro dos limites da ilusão, a resposta é: o desejo nascido da recordação o atrai a um corpo e o faz pensar que você é um com ele. Mas isto é verdadeiro apenas do ponto de vista relativo. De fato, não há nenhum corpo, nem um mundo para contê-lo; há apenas uma condição mental, um estado como o do sonho, fácil de dissipar pelo questionamento da realidade.

P: Depois que você morrer, voltará outra vez? Se eu viver o bastante, tornarei a encontrá-lo novamente.

M: Para você o corpo é real, para mim não há nenhum. Eu, como você me vê, existo apenas em sua imaginação. Sem dúvida, você novamente me verá se necessitar de mim e quando me necessitar. Isto não me afeta, exatamente como o Sol não é afetado por amanheceres e ocasos. Porque ele não é afetado, certamente estará aí quando for necessário.

Você é propenso ao conhecimento, eu não. Não tenho esse sentido de insegurança que o faz ansiar o conhecimento. Eu sou curioso, como uma criança é curiosa. Mas não há nenhuma ansiedade que me faça buscar refúgio no conhecimento. Portanto, não estou preocupado se deverei renascer, ou quanto durará o mundo. Estas são perguntas que nascem do temor.

*Do livro: "Eu sou Aquilo - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj"

sexta-feira, julho 15, 2011

Descanse no que é permanente


Papaji

Todo mundo, qualquer um, quer desfrutar dos objetos dos sentidos.

Isso envolve todos, todos os seres estão envolvidos em gozar dos sentidos. Talvez vendo,ouvindo, cheirando, tocando, saboreando, isto é tudo. Então como desapegar nossa mente destas coisas? E como isto pode trazer quietude?

Quando você souber, que todos estes objetos, não lhe trazem nenhum descanso ou paz. Então mais e mais, pense nisto, isto que eu tanto gosto, não me dá real satisfação. Mais e mais, eu quero repeti-la; novamente, eu quero repeti-la, mas ainda eu não consegui paz. Você está criando uma espécie de desgosto com isso, com esses objetos. Agora você quer desapegar-se dessas coisas, porque elas não lhe deram paz ou relaxamento.

Um santo Telegu, um santo-poeta muito famoso de 500 anos atrás. Seu nome era Tyagaraja. O pessoal que se interessa por música conhecem muito bem esse nome, Tyagaraja, o rei dos músicos cantores, o rei dos músicos. Ele também disse “sianta malaika sowkya malaidu”, isto é em Telegu. “Quando não há quietude, nem o reinado pode dar-lhe felicidade”. Isso é o que ele diz, quando nós sabemos que os objetos sensoriais não vão trazer-nos permanente felicidade, nós vamos lentamente retirando nossa mente desses objetos. Continuamente, até nos Vedas isto é declarado, “yatra yatra manayadhi, tatra tatra samadhyd”—Sempre que a mente entra em contato com objetos sensoriais, traga-a de volta, traga-a de volta para a paz, traga-a de volta para a quietude.

Acalme-a, onde quer que ela for, sempre que ela for, seja muito cuidadoso e traga-a de volta, porque você tem visto que estes objetos sensoriais não trazem paz para você.

Portanto, este é abhyasa, a prática, que Krishna falou a Arjuna. Desapegue, onde quer que a mente vá, separe isto dos respectivos objetos sensoriais, novamente e novamente.

Então, lado a lado, está o desapego e lado a lado o desejo pela sabedoria de Brahman,liberdade, desejo por liberdade, ambos devem estar correndo juntos. Desapegue-se dessas coisas, que não são permanentes, e descanse no que é permanente, sempre.