"MAIOR É O QUE ESTÁ EM VÓS DO QUE O QUE ESTÁ NO MUNDO." (I JOÃO 4:4)

sábado, junho 09, 2007

APENAS UM PASSO!


"Osho,
Apenas um passo!"





“Digambara,

Sim, na verdade nem mesmo um… Porque nós não vamos a lugar algum. Nós já estamos em Deus! Eu digo ‘apenas um passo’ só para consolá-lo, porque se não houver passo para dar você vai ficar confuso. Então eu reduzi ao mínimo - apenas um passo - de modo que alguma coisa permanecesse para você fazer, pois você só entende a linguagem do fazer. Você é um fazedor! Se eu disser, ‘Nada precisa ser feito, nem mesmo um simples passo tem que ser dado’, você se sentirá perdido num jogo de cara ou coroa.

A verdade é que nem mesmo um simples passo é necessário. Sentado silenciosamente, nada fazendo, a primavera chega e a grama cresce por si mesma. Mas isto pode não ser simples. A sua mente fazedora pode simplesmente ignorar isto ou pode pensar que tudo isto é tolice. Como você pode alcançar Deus sem fazer coisa alguma? Sim, um atalho a mente pode entender; é por isto que eu digo ‘um simples passo’. Isto é o mais curto, não pode ser reduzido a menos que isto.

Um simples passo! Isto é apenas para que você compreenda que o fazer é não-essencial. Para se alcançar o ser, o fazer é absolutamente não-essencial. Quando você concordar e se convencer de que apenas um passo é necessário, eu irei sussurar em seu ouvido, ‘Nem mesmo um – você já está lá!’

Rabiya, uma grande mística Sufi, estava passando. Ela costumava passar naquela rua todos os dias quando ia para o mercado onde anunciava em alta voz a verdade que ela havia alcançado. E por muitos dias ela esteve observando um místico muito conhecido, Hasan, que se sentava do lado de fora da mesquita e rezava, ‘Deus, abra a porta! Por favor, abra a porta! Deixe-me entrar!’

Mas, naquele dia, Rabiya não conseguiu tolerar aquilo. Hasan estava chorando, as lágrimas estavam rolando, e ele gritava repetidas vezes, ‘Abra as portas! Deixe-me entrar! Por que você não me escuta? Por que você não atende às minhas preces?’

Todos os dias ela ria; sempre que ela ouvia Hasan, ela ria. Mas, hoje, aquilo estava demais. As lágrimas... E Hasan estava chorando de verdade, um choro que vinha de seu coração. Ela foi até ele, sacudiu-o e disse, ‘Pare com toda esta tolice! A porta está aberta – na verdade você já está dentro!’

Hasan olhou para Rabiya e aquele foi um momento de revelação. Ao olhar dentro dos olhos de Rabiya, ele se curvou e tocou-lhe os pés, dizendo, ‘Você chegou na hora certa, senão eu iria continuar pedindo por toda a minha vida! Por anos eu tenho feito isto. Onde você estava antes? Eu sei que você passa por esta rua todos os dias. Você já devia ter visto o meu choro e minha prece.’

Rabiya disse, ‘Sim, mas a verdade somente pode ser dita no momento certo, no espaço certo, no contexto certo. Eu estava esperando pelo momento certo e maduro. Se eu lhe tivesse dito ontem, você teria ficado irritado, teria ficado com raiva. Você poderia ter reagido antagonicamente; você poderia me responder, ‘Você perturbou a minha prece!’ E não é correto perturbar a prece de ninguém. Mesmo a um rei não é permitido perturbar a prece de um mendigo. Mesmo se um criminoso, um assassino, estiver orando, nos paises muçulmanos, a polícia tem que esperar até que ele termine a prece. Somente depois ele pode ser preso. A prece não deve ser perturbada.

Rabiya disse, ‘Eu queria lhe dizer para deixar de ser tolo, que a porta está aberta, e que, na verdade, você já está dentro! Mas eu tive que esperar pelo momento certo.’

Digambara, eu digo ‘apenas um passo’ e mesmo isto parece ser inacreditável para você, daí o seu questionamento.

Você diz: "Osho, apenas um passo! "

Nem mesmo um, Digambara. Mas o momento certo ainda não chegou, pelo menos para você. Quando ele chegar, eu irei sussurrar em seus ouvidos, ‘Você já está dentro. Nem mesmo um simples passo é necessário’ porque nós não estamos indo para fora. Os passos são necessários para ir para o lado de fora. Eles não são necessários para ir para dentro.

É como um homem sonhando e no seu sonho ele vai para muito longe. E ele terá uma grande jornada para voltar para casa. Ele está em sua casa, dormindo, mas em seu sonho ele pode estar em Timbuctoo. É preciso apenas sacudi-lo.

Assim como Rabiya sacudiu Hasan, um dia eu irei sacudi-lo Digambara. É preciso apenas lhe jogar uma água fria, uma água gelada, e com o choque você vai abrir os olhos. Você acha que irá me perguntar, ‘Como eu volto para casa, pois estou em Timbuctoo?’ Não, você não irá perguntar, pois você vai poder ver que já está em casa, que você apenas estava dormindo e tinha sonhado com Timbuctoo. Você nunca foi lá.

Você nunca esteve fora de Deus! Você não consegue, é impossível, porque somente Deus existe. Para onde nós podemos ir? Não existe lugar onde Deus não esteja. Nós estamos sempre nele e ele está sempre em nós. Mas isto precisa de um despertar.

Nem mesmo um passo. Isto é apenas para trazê-lo mais próximo da verdade. Aos poucos você tem que ser persuadido. Mil passos são reduzidos para um passo e depois eu tirarei também aquele passo de você. Mas para isto é preciso um momento certo. A Verdade última somente pode ser dita numa situação certa e madura.

E esse momento também chegará. Simplesmente esteja pronto para recebê-lo e acolhê-lo...” (OSHO - The Book of the Books - Volume I - Discourse n. 6 – pergunta n° 6)


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*Palestras sobre O Dhammapada, de Gautama, o Buda -- tradução: Sw.Bodhi Champak

domingo, maio 13, 2007

O MANÁ ESCONDIDO (Joel S. Goldsmith)

Joel S. Goldsmith


Nova dimensão nos pertence: não mais buscamos o mundo, mas habitamos o centro de nosso próprio ser, onde contemplamos a glória de Deus e aguardamos que o mundo venha a nós.

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido.”(Apocalipse 2:17)

“Quem tem ouvidos”—aquele que tem ouvidos espirituais, que consegue ouvir o inaudível — permita-lhe que ouça. Permita-lhe ouvir o que diz o Espírito, não o que eu digo, não o que diz o livro, não o que você gostaria de dizer, mas o que diz o Espírito: “Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido”.

Toda a mensagem de O CAMINHO INFINITO se resume na expressão “maná escondido”. Maná escondido! Como isto é parecido com a frase de Jesus: “A minha paz vos dou: não vo-la dou como o mundo a dá” – não saúde física ou riqueza material, um lar, um automóvel, não algo dado pelo mundo, mas a Minha paz! A Minha paz é algo que o mundo não reconheceria, mesmo estando cara a cara com ela; tampouco a perceberia, mesmo estando a experienciá-la. Minha paz! A paz que é sentida não por estar o corpo saudável, ou a carteira cheia de dinheiro; não por estar o lar feliz, próspero e jubiloso. Não, não, não! A Minha paz é uma paz sentida interiormente, alheia às condições externas, mas que acaba fazendo com que todas estas últimas se alterem.

Eis o mistério escondido. A paz, aquela que o mundo lhe dá, chega a você pelas circunstâncias e condições externas. Se dispuser de mais saúde ou riqueza, de uma casa mais ampla, de férias prolongadas, isso tudo poderá lhe sugerir um estado de paz que será temporário. O bem vindo de fora, e que hoje você desfruta, talvez amanhã venha a ser-lhe tomado. Mas a Minha paz é diferente. A Minha paz é uma atividade de recebimento e de fluxo que se dá em seu próprio âmago; assim, jamais depende de algo: é autogerada e autossustida. A Minha paz aflora de um manancial oculto internamente, trazendo com ela o bem que jamais o abandonará.

Em outras palavras, a paz conscientizada interiormente sempre estabelecerá a harmonia de seu mundo exterior. Este é o “maná escondido”; este é o alimento citado por Cristo, quando disse: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis”. Este é o alimento oculto, o alimento espiritual. Quando ele disse: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”, referia-se àquele pão espiritual, àquela substância e suprimento espirituais—não a alimentos ou circunstâncias exteriores.

O mundo está em busca de paz, harmonia, integridade e satisfação: mas, está buscando onde julga ser capaz de conseguir, ou seja, externamente, no mundo lá fora. Existe a possibilidade de se desfrutar paz, prosperidade e satisfação vindas de fora, enquanto durar aquela condição específica; entretanto, a satisfação obtida externamente geralmente é perdida, e a pessoa acaba quase sempre indo à cata de “brinquedos novos”.

A vida se transforma totalmente, tão logo você assimile firmemente a grandiosa Verdade de que “a palavra que sai da boca de Deus” é a substância da vida, e passar a compreender o sentido profundo das seguintes passagens da Bíblia:


- "Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis." (João 4:32)

- "Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva." (João 4:10.14.)

- "Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido." (Apocalipse 2:17.)


Tão logo passe a observar que o que é exterior e palpável é mero produto do que é invisível, você deixará de avaliar seu suprimento em função de quantas maçãs, pêssegos ou moedas é possuidor, mas sim em função de quantos contatos com Deus foram feitos.

Todo bem que porventura lhe surgir na vida será conseqüência da atividade da Verdade em sua consciência. Em outras palavras, se a sua consciência de amanhã for idêntica à de hoje, não fique na expectativa de que surgirão amanhã frutos diferentes daqueles que você possui hoje. Para o amanhã lhe trazer uma condição renovada é preciso que hoje, em sua consciência, alguma atividade diferente esteja acontecendo. Se pretende colher frutos espirituais em sua vida, terá de “deixar suas redes”, eliminando de si mesmo quaisquer galhos que o estejam prendendo àqueles já mortos. Você não entrará na presença de Deus levando junto os seus fardos. Não irá a Ele levando algum desejo de que Deus faça, seja, ou consiga alguma coisa para você... mas terá de purificar todos os seus anseios humanos, pela conscientização da Graça divina. Deverá abrir mão do passado e do futuro; deverá abandonar todo o desejo por alguma pessoa, lugar, coisa, circunstância ou condição, abandonar inclusive a espera pelo paraíso.

A presença de Deus está em seu interior, e precisa ser percebida conscientemente; mas, esta conscientização somente se realizará para aquele que estiver buscando Deus com este objetivo exclusivo e único: a busca de Deus em Si. Todo aquele que vinha buscando a Deus e perdeu o rumo, perdeu-o por ter buscado a Deus por algum outro motivo: por uma cura, por suprimento, por um lar, por felicidade, ou por outra coisa qualquer. Deus não pode ser alcançado dessa maneira. Deus pode ser alcançado somente de um modo: pela completa renúncia a tudo, excetuando o desejo único de se abrir à “Graça que é a sua suficiência”. Pense no que representa ter a Graça divina. Pense no que representa ter a paz do Cristo, a Minha paz que o Cristo lhe pode dar; não a paz do mundo, não a saúde ou o dinheiro, não a posição, lugar ou poder: unicamente a paz espiritual. Pense no significado de você somente desejar a Minha paz, a paz do Cristo, sem o mínimo pensamento sobre o que ela irá fazer ou conseguir para você!

Isto somente lhe ocorrerá à medida que conscientizar esta paz no interior de sua própria consciência. Abra mão de tudo, dizendo: “Não quero viver de pão, somente, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Assim, logo em seguida ocorrerá o “milagre”.

Ao se despojar das dependências materiais e humanas, palavras como “você”, “ele” ou “ela” tenderão a diminuir e quase sumir de seu vocabulário. Não ficará pensando mais com tanta freqüência sobre um “você”, um “ele” ou “ela” de quem, até então, vinha esperando tanto. A cada necessidade que surgir em sua vida, seu primeiro pensamento será voltar-se ao Cristo. Do Cristo, e através do Cristo, todo bem lhe haverá de chegar: não por algum “você”, “ele” ou “ela”, mas única e exclusivamente pelo Cristo.

É bem verdade que o Cristo aparecerá na forma de algum veículo humano. Talvez ocorra de seu bem lhe chegar através de mim, ou de meu bem me chegar através de você; entretanto, nem ele virá de você para mim, nem ele irá de mim para você. Jamais eu iria esperá-lo de você, nem você esperá-lo de mim. Eu contaria somente com o Cristo de meu próprio ser, e este Cristo apareceria como você. Por sua vez, também você iria esperar a mensagem da Verdade somente do Cristo de seu próprio ser, que poderia, hoje, estar-lhe vindo pela minha pessoa, e, amanhã, por alguma outra; mas, nesta ou naquela condição, continuaria sempre sendo o Cristo de seu próprio ser, revelando-Se a você.

Quanto menos personalizar seu bem e os canais pelos quais ele lhe chega, permitindo o aparecimento do Cristo na forma que se lhe fizer necessária a cada momento, mais comprovará esse mecanismo em sua vida. Tão logo passar a conscientizar o Cristo como a origem e a fonte de seu bem, contemplando-O continuamente, assim Ele Se manifestará.

Talvez, em algum momento, você fosse levado a pensar: “Será que mereço este bem? Serei digno dele? Terei a compreensão necessária para recebê-lo? Terei tempo necessário para estudar, ler e orar o necessário para obtê-lo?” Gostaria que soubesse o seguinte: o seu bem não depende de coisa alguma que você pudesse estar a fazer: ele é a pura atividade do Cristo em sua consciência, ao qual você se mantém aberto.

Nada pode paralisar a mão de Deus, nem mesmo seus supostos pecados de omissão ou comissão. Nada que faça ou que tenha deixado de fazer irá barrar o fluir divino. Este fluxo independe da quantidade de leitura espiritual que tenha feito, de idas à igreja, ou de estudo e meditação. Estes são apenas fatores auxiliares na abertura de sua consciência. E este é o único objetivo de todos eles. Deus não está jamais esperando sentado, até você se tornar bondoso ou espiritualizado, ou até terminar de ler centenas de páginas sobre a Verdade, ou meditar por determinado número de horas.

O Cristo é a realidade de seu ser agora. Ele está à espera, mas é você que deverá deixá-Lo entrar: primeiramente, exterminando a crença de que Ele seja algo externo ao seu ser; em segundo lugar, permitindo o Seu fluir, através da sua conscientização de sua onipresença.

Se você acreditar, por um segundo que seja, que seu bem depende de algo que possa humanamente fazer ou deixar de fazer, estará se excluindo do fluxo divino. Deus em Si está fluindo infinitamente, e a única barreira à totalidade de Sua expressão é proporcional à sua crença de que o bem divino é dependente daquilo que você faz ou deixa de fazer. Qualquer que seja a atividade espiritual de que faça parte, saiba que o objetivo dela não é o de receber o bem de Deus, mas o de ensiná-lo como abrir sua consciência ao Seu influxo.

Jamais creia que possa provocar ou impedir o fluir divino. Ele já está pleno e completo no interior de seu próprio ser, aguardando seu reconhecimento de sua plenitude no Cristo. Embora escarlates possam ser seus pecados, você é alvo como a neve. Apenas não recaia, não volte a pecar: não retorne à crença de um senso separatista de Deus, Não volte a buscar seu bem no exterior, pois, uma vez aprendido que o reino de Deus está em seu interior, e que deve permitir seu fluir de dentro para fora, se retornar à tentativa de novamente buscá-lo no exterior, isto lhe causará uma sensação de separatividade mais profunda ainda, nunca antes sentida. Não faça isso! Não retroceda! “Vai-te, e não peques mais.” Não retroceda para não se prejudicar, caso alguém não esteja agindo conforme sua expectativa, isto é, perdoando-o, dando-lhe cooperação ou reconhecendo as suas virtudes. Não retroceda àquilo! Solte-o! Conceda-lhe perdão! Deixe-o ir! Você está a sós com seu Deus. Você está a sós em seu Ser-divino.

Há períodos em que você se vê diante de alguma aparência de conflito, desarmonia, dor, escassez ou limitação: em tais casos, costuma ser tentado a fazer esforços mentais, empenhando-se em vigorosas mentalizações, afirmações e negações, na esperança de achar harmonia e paz. Inverta agora esse mecanismo! Sempre que surgir alguma aparência de discórdia, relaxe. Não faça o mínimo esforço mental! Lembre-se: o seu bem não lhe virá “pela força ou pelo poder, mas pelo suave Espírito”. O seu bem não lhe virá pelas suas lutas e esforços mentais, mas sim das profundezas do seu ser, na quietude, no silêncio e na confiança.

Você não tentará obter uma cura. Irá aquietar-se e deixar que venha a “pequenina voz suave”. Deixará que o Espírito desça sobre você. Fique descansado, exatamente agora, em meio a qualquer doença, carência, discórdia ou desarmonia que porventura o estiver perturbando. Repouse! Relaxe!

“Minha Graça é a tua suficiência... Eu nunca o deixarei nem o abandonarei.” Para que lutar como se necessitasse de se agarrar a Mim? Como se tivesse de buscar-Me? Ou de procurar-Me? Eu estou em seu próprio íntimo, “mais próximo que seu fôlego, mais perto que suas mãos e pés.”

Se você sabe dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais Eu, seu Pai celestial, não saberei fazê-lo? Não se esforce para consegui-las. Eu as darei a você.Eu lhe darei água. Não desça balde em poços à procura dela. Eu lhe darei água. Quanto a você, fique quieto, deixe que Eu o alimente... deixe que Eu sacie sua sede. Deixe que Eu, em seu âmago, seja a influência curadora. O Cristo curador.

Não tente fazer de sua mente ou pensamentos o Cristo curador. “Os meus pensamentos não são os teus pensamentos, nem os meus caminhos são os teus caminhos.” Por que não abre mão de seus pensamentos nem deixa de lado os seus caminhos? Deixe que os Meus pensamentos assumam o comando. Permaneça repousado dando ouvidos a Mim. – a pequenina Voz suave do centro de seu ser. Eu nunca o deixarei nem o abandonarei. Mesmo “no vale da sombra da morte”, Eu ali estarei. Você jamais conhecerá a morte; jamais morrerá. Por quê? Porque Eu lhe darei água viva que salta para a Vida eterna.

Assim, se permanecer ouvindo a Minha Voz suave, se em Meus braços eternos relaxar, se em Mim repousar, se deixar que Eu o alimente, mantenha e sustente cada palavra que de Minha boca proceder, jamais você morrerá.

Eu nunca conheci um justo a mendigar pão. Que é um justo? Aquele que repousa em unidade comigo. Relaxe, pois, na contemplação do Meu amor, de Minha presença. O Meu espírito está junto a você; a Minha presença segue à sua frente.

“Na casa do Pai há muitas moradas; vou preparar-vos lugar.” Por certo que vou. Sendo assim, deixe de se preocupar. Pare, pare, pare de temer; pare de duvidar. Pare de tanto insistir com declarações, afirmações e negações. Deixe ir tudo! Repouse em Mim, repouse em Meus braços. Eu, seu Pai celestial, sei que necessita destas coisas, e é do Meu agrado a você concedê-las—não querendo que você se esforce por elas; não querendo que dê “tratamentos espirituais” para consegui-las; mas, é do Meu agrado a você concedê-las, pela Graça. Não pela força, não pelo poder, mas por Meu Espírito. Tudo lhe é possível realizar através de Mim, o Cristo de seu próprio ser.

Deixe que o Cristo seja o canal pelo qual você é alimentado, vestido, abrigado, confortado, protegido, curado, sustentado e mantido. Sempre que surgir em seu horizonte alguma aparência de discórdia, relaxe mais, repouse mais, permaneça ainda mais em paz, certo da presença divina em seu interior. Confie em seu Eu, confie no Cristo do centro de seu próprio ser.

Creia na existência de uma Presença cuja função única é abençoá-lo, bendizê-lo e ser instrumento da Graça de Deus. Confie nEla. “Não deposite sua confiança em príncipes”—creia somente em Deus. Não viva mais de pão, ao menos não somente de pão, mas de toda palavra, de cada promessa bíblica, que deverá ser cumprida em você. “Para onde tu fores, irei também eu” ... Eu darei ao vencedor o maná escondido.”

Este “maná” está escondido dentro de você. O mundo não consegue vê-lo; o senso comum não consegue conhecê-lo; os seres humanos não conseguem compreendê-lo. Ele está escondido do mundo. Escondido onde? Nas profundezas de seu próprio ser!


Retire sua atenção de homens e mulheres do mundo. Retire sua fé e dependência a pessoas do mundo, das circunstâncias e condições do mundo; e, em sua lembrança, fique somente com este conhecimento: profundamente, em seu interior, existe alimento que o mundo desconhece; há mananciais de água e maná escondidos, tudo já incorporado interiormente ao seu próprio ser.

domingo, abril 08, 2007

Hsin-Hsin-Ming

Agora vou deixar aqui um texto muito antigo e preciosíssimo, decorrente da sabedoria Zen. 'Hsin-hsin-ming' é um texto antigo, escrito na China antiga, quando o Zen ainda era chamado 'Chan" (A palavra japonesa "Zen" é uma adaptação da palavra chinesa "Chan"). Ele é uma das mais fortes demonstrações da ligação do Pensamento Zen com a filosofia Taoísta.

O termo "Hsin" significa coração, mas o seu sentido é o de Mente -- uma mente pura, essencial e profunda... que nada tem a ver com o intelecto. É uma sabedoria que é transmitida diretamente ao coração. A compreensão dessa sabedoria não decorre das limitações do intelecto, mas transcende a ele. Hsin-hsin-ming é uma revelação que brota espontaneamente do interior de toda vida... diretamente de Deus.



Hsin-hsin-ming (Canção do Coração)

"Não é difícil descobrir tua Mente Búdica.
Simplemesnte deixe de procurá-la.
Deixe de aceitar e rejeitar possíveis lugares
Onde pensas que ela possa estar.
E ela aparecerá diante de ti.

Cuidado! O menor sinal de preferência
Abrirá um abismo largo e profundo como o espaço entre o céu e a terra.

Se queres encontrar tua Mente Búdica
Não tenha opiniões sobre nada.
Opiniões produzem argumento
E a disputa é uma doença da mente.

Submerge nas profundezas.
A quietude é profunda. Não há nada profundo em águas razas.
A Mente Búdica é perfeita e engloba o universo.
Não tem carência de nada e nada tem em excesso.
Se pensas que podes escolher entre as suas partes,
Perderás de vista a sua verdadeira essência.

Não te apegues às aparências, às coisas opostas,
às coisas que existem como relativas.
Aceite-as com imparcialidade...
E não terás que perder tempo com escolhas sem sentido.

Os julgamentos e discriminações bloqueiam o fluxo e trazem as paixões.
Irritam a mente, que precisa de quietude e paz.
Se vais de encontro de isto a aquilo,
ou a quaisquer dos inumeráveis opostos,
Perderás de vista o todo, o Uno.
Seguindo um oposto estarás te extraviando,
para longe do centro de equilíbrio.
Como esperas alcançar o Uno?

Decidir o que é, é determinar o que não é.
Mas determinar o que não é pode te ocupar tanto,
que acaba se convertendo no que é.
Quanto mais falas e pensas, mais longe te encontras.
Deixa de falar e de pensar, e o encontrarás em todas as partes.

Se deixares todas as coisas voltarem à sua origem, está bem.
Mas se tu páras para pensar que esta é tua meta
E que é disto de que o teu sucesso depende,
E lutas e lutas, ao invés de simplesmente deixar ir,
Tu te perdes no Caminho, e não estarás praticando Zen.
No momento em que começas a discriminar e a preferir perdes o Caminho.
Buscar o real também é um falso ponto de vista
que deveria ser IGUALMENTE abandonado.
DEIXA PASSAR! Deixa de buscar e de escolher.
As decisões dão lugar às confusões,
e aonde pode chegar uma mente confusa?

Todos os pares de opostos vêm da Única Grande Mente Búdica.
Aceita os opostos com dócil resignação.
A Mente Búdica permanece calma e quieta,
Mantenha sua mente nela e nada poderá te perturbar.
O inofensivo e o danoso deixam de existir.
Os sujeitos, quando liberados de seus objetos, desaparecem
Tão certamente quanto os objetos,quando liberados de seus sujeitos, desaparecem também.
Cada um depende da existência do outro.
Entenda esta dualidade e verás que ambos provêm do Vazio do Absoluto.

A base de todo Ser contém os opostos.
Todas as coisas se originam do Uno.
Que perda de tempo escolher entre grosso e fino.
Já que a Grande Mente faz nascer todas as coisas,
Abrace-as todas e deixe morrer teus preconceitos.

Para realizar a Grande Mente não sejas vacilante nem ansioso.
Se tentar pegá-la, agarrarás o ar e cairás no caminho dos heréticos.
Onde está o Grande Tao?
Podes simplesmente deixar de querer possuí-lo?
E podes deixá-lo LIVRE e apenas confiar nEle?
Ele permanecerá ou se irá?
Ele está em toda a parte esperando por você...
Para unir a tua natureza com a Dele
E, assim, tu possas ficar livre de problemas, como Ele é.

Não canse tua mente te preocupando em saber o que é real e o que não é,
Sobre o que aceitar ou o que rejeitar.
Se queres conhecer o Uno,
deixe teus sentidos experimentarem o que vier.
Mas não seja influenciado e nem te envolvas no que vier.
O sábio age sem emoção e parece nem estar agindo.
O ignorante permite que suas emoções o envolvam.
O sábio compreende que todas as coisas são parte do Uno.
O ignorante vê diferencas em toda parte.

Todas as coisas são iguais em sua essência.
Assim, apegar-se a algumas e abandonar outras é viver no engano.
A mente não é juiz equânime de si mesma.
Tem preconceitos a favor ou contra si mesma.
E não pode ver nada objetivamente.

Bodhi (a Essência) está além de toda noção de bem e mal,
além dos pares de opostos.
Os devaneios são ilusões e as flores nunca florecem no céu.
São invenções da imaginação e não merecem ser considerados.
Ganho e perda, certo e errado, grosso e fino.
Deixa todos irem! Permanece atento.
Mantém abertos teus olhos.
Teus devaneios desaparecerão.
Se não fizeres julgamentos,
tudo será exatamente como deve ser.

Profunda é a sabedoria do Tathagata, Excelsa e além de todas as ilusões.
Este é o Uno a que todas as coisas retornam
desde que tu não as separe,
Mantendo algumas e afastando outras.
De qualquer modo, onde as deixaria?
Todas estão dentro do Uno. Não há fora.

O Supremo não tem modelo, dualidade, e nunca é parcial.
Confia nisto. Mantém viva a tua fé.
Quando abandonas todas as distinções nada sobra,
Exceto a Mente que é agora pura... que irradia sabedoria,e nunca se cansa.

Quando a Mente abandona as discriminações,
Os pensamentos e os sentimentos não podem sondar suas profundezas.
O estado é absoluto e livre. Não há nem eu, nem o outro.
Apenas te darás conta de que és parte do Uno.
Tudo está dentro e nada está fora.

Os sábios do mundo todo compreendem isto.
Este conhecimento está além do tempo, seja longo ou curto,
Este conhecimento é eterno. Nem é, e nem não o é.
O todo é aqui.
E o menor é igual ao maior.
O espaço nada pode confinar.
O maior é igual ao menor.
Não há limites, nem dentro nem fora.
O que é e o que não é são a mesma coisa,
Porque o que NÃO É é igual ao que É.
Se não despertares para esta verdade, não se preocupe.
Apenas creia que tua Mente Búdica não é dividida,
Que ela aceita tudo sem julgamento.
Não preste atenção a palavras, discursos, ou métodos bonitos.
O eterno não tem presente, passado ou futuro."

domingo, março 18, 2007

Por que palavras?

Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

sábado, fevereiro 24, 2007

O que esta existência está fazendo aqui?

A Vida está, neste exato momento, bem aqui. É um triste infortúnio que ninguém esteja dando à ela a sua atenção. Isso é algo realmente triste. A vida nos fala tantas coisas, ela nos diz tantas coisas, que isso por si só já basta para fazer o homem alegrar-se com a sua existência e com a existência das demais coisas. Não importa o que seja: qualquer coisa que possa estar existindo, nesse exato momento, para alguém é o suficiente para que o homem regozije desta dádiva. Tudo é uma bênção, tudo é uma dádiva... tudo é um verdadeiro milagre.

O homem pode viver de maneira leve, aliviado de todas as pressões e preocupações das quais sua mente se ocupa habitualmente. Carregar estes fardos, além de ser muito desnecessário (e a maioria das pessoas não têm consciência disto), é deixar que o sentido da vida se perca e, assim, a vida se torna insuportável para qualquer um. Daí tantas pessoas miseráveis nesse mundo; é por isso que há tanta gente sofrendo e passando por problemas... Mesmo que muitas pessoas não aparentem sofrer ou terem problemas, por dentro elas estão sendo corroídas por uma série de sentimentos feios, mas elas usam máscaras e, assim, conseguem manter suas aparências para os outros. Todos querem passar ao próximo uma impressão de que tudo está perfeito, de que tudo em suas vida saiu conforme o planejado, de que são pessoas de sucesso. Assim, essas pessoas sentem que têm algo do qual possa se orgulhar. É uma maneira de se sentirem importantes... é uma forma que o ego tem de se afirmar. Eles, na verdade, só conhecem a frustração. Essa é a vida que todo o mundo está vivendo.

Mas mesmo isso pode se tornar algo belíssimo. Todas as experiências -- quais quer que elas sejam -- podem se tornar muito bonitas, agradáveis e gratificantes de serem vividas para quem tem olhos para olhar para a vida, para esta existência... esse é o alívio.

Olhe com atenção para as coisas! Pergunte-se por um momento: "O que é que toda esta existência está fazendo aqui?". Quando perguntar, tente colocar um pouco os conceitos e preconceitos de lado. Deixe sua religião de lado. Deixe, até mesmo, a questão de Deus um pouco de lado. Tente ver a relação que a existência possui diretamente com você. Não coloque conceitos, filosofias entre vocês... nem mesmo Deus. Apenas por um instante... Com certeza Deus não verá isto como um pecado seu. Ele não é assim tão mesquinho. Não é pecado o homem querer sondar sua própria existência. Deus não condenaria ninguém por conta disto.

Quando for perguntar, olhe para a existência de forma completa -- percebendo tudo o quanto puder -- e então "O que toda essa existência, inclusive eu, está fazendo aqui?" Veja que tudo isto não tem obrigação alguma de existir; e o mais impressionante de tudo é que todas estas coisas existem e permanecem existindo... Que milagre!!!

Olhe bem para a pergunta e procure separar bem toda a existência que você consegue perceber do "aqui" a que a pergunta se refere. Se você conseguir fazer isso, então vai perceber que esse "aqui" não é um lugar localizado no espaço... ele é um "aqui" transcendental. O segredo dessa pergunta está na palavra "aqui". Separe o "aqui" da existência que você questiona. E você terá a resposta; e você perceberá como, de repente, tudo vai parecer ficar mais leve. Quando ficar mais leve, você entenderá que sempre esteve carregando um fardo desnecessário com você, mas nunca percebeu porque você não conhecia a outra experiência -- você só pode perceber o fardo que carrega quando ele é retirado de você... somente por contraste isso é possível. Assim, por um instante, você vai tirar toneladas de cima de você... e o resto da experiência você confere por si mesmo. É desta forma que tudo se torna uma dádiva; é desta forma que tudo passa a ficar belo, de forma que a vida pode passar a ser deliciosamente desfrutada.

É que a existência é algo tão evidente, que ninguém mais dá atenção à ela. É incrível como as coisas mais óbvias são as que mais perdem sua importância. Isto está errado. A vida está aqui e é tremendamente bela... veja!

Jogar fora o fardo que se carrega não é nenhum pouco complexo. Colocá-lo de lado significa parar de querer estar no controle da situação. Veja: se você analisou bem a pergunta, você compreenderá que a vida existe independente de suas vontades, de seus esforços... ela segue sozinha. E você está tentando carregá-la, você não permite que ela seja livre e ande por conta própria. Esse é o fardo que torna a vida de tantas pessoas uma verdadeira miséria. A existência não depende de você para existir (um dia você morrerá, não estará mais aqui, e a existência vai continuar prosseguindo), e você segue agindo como se ela dependesse... querendo forçá-la, manipulá-la. Você não confia em ninguém que não seja em você -- nem mesmo em Deus; você não abre o seu coração e, assim, nada novo pode entrar em você. A existência é que carrega você, e você está tentando carregá-la... está querendo inverter a ordem das coisas. Vai sofrer, portanto, pois ela é algo muito maior do que você: por isto ela o está carregando nela. Querer inverter a ordem das coisas, sem pagar um preço por isto, é querer demais. Mas é apenas uma questão de escolha. Permita o acontecimento das coisas. Você não precisa se preocupar com o que vai acontecer quando você abandoná-la, quando você jogar tudo para o alto. Você não precisa se preocupar quem vai segurá-la para você, depois que tiver largado dela. O dono dela fará isso -- seja lá quem for ele.

Se você é o dono de um objeto muito importante para você, e este objeto está com um conhecido seu, então ele estará carregando para você. Mas seu conhecido também é tão importante para você quanto o seu objeto que ele está carregando. Será que você irá lá, sem-mais-nem-menos, e simplesmente tomará o objeto de volta para você? Ambos são muito importantes para você... você não poderá interferir. Mas, no momento em que seu conhecido decide largar o objeto e o joga para o alto... quem irá pegá-lo, agora, a não ser você, o dono? Você o pegará de volta, com certeza. Você é o dono!

E assim acontece quando se decide/escolhe jogar o fardo de querer carregar a existência para o alto. O dono dela vai pegá-la... e vai carregá-la consigo. Então não há nada com o que se preocupar.

Querer estar no controle das coisas é o fardo que todo mundo está carregando. Isto não significa que, quando você deixar a vida prosseguir sozinha, agirá como um animal irracional ou fará coisas sem sentido. A questão toda consiste em observar a vida com consciência e isso também pode ser feito enquanto você toma decisões, enquanto você raciocina. Não é que você será jogado nas mãos do destino, pois você permanecerá fazendo as escolhas que sempre fez -- a vida é feita de escolhas. O fato é que, quando você conseguir realmente realizar a entrega, até mesmo nas questões que você decidir, a visão de que tudo anda sozinho estará presente. Você será um observador em se tratando de qualquer coisa. Assim, toda a questão aponta para este "algo" Transcendental.

Não é preciso ter medo. Páre de arranjar desculpas para ter medo. A mente humana é esperta e é fácil conseguir arranjar desculpas para justificar o medo de abandonar o suposto poder, que ela acha que tem. É preciso confiança... é preciso coragem. A coragem é necessária para fazer a entrega; e a confiança também é necessária na entrega, para confiar que o dono da vida passará a carregar e cuidar das coisas que você tinha tanto medo de abandonar. Coragem e confiança devem andar juntas.

Assim, pare de se preocupar com as coisas. A existência segue sozinha. Não tente carregá-la. Não seja tão egoísta; pare de confiar somente em si mesmo, e em mais ninguém. Isso é doentio; isso é uma neurose; isso faz você e os outros sofrerem. "Confiança apenas em si mesmo, e dúvida quanto a tudo o mais" é o próprio conceito de egoísmo/ego.

Por que você a está carregando? Está pensando que será muito peso para Deus, para a existência? Não se preocupe. Tudo está acontecendo. Deixe Deus tomar conta de tudo. Permita que as coisas aconteçam... entregue-se... aceite... e ame! Viva a vida.


sexta-feira, fevereiro 09, 2007

A GOTA E O OCEANO

Este texto foi retirado do livro de Thomas Merton, e transmite com muita lucidez informações claras e preciosas à respeito da filosofia Zen. É interessante como o escritor compara o Zen às principais religiões de hoje e vai , ao mesmo tempo, relacionando a temática espiritual com fatos históricos que ocorreram ao longo do tempo. A pedido de um amigo meu -- e por força de vontade minha, também -- vou disponibilizá-lo aqui no Busca Espiritual. Vale muito a pena! Bom proveito... A Viagem Interior é só sua.
Começando:

“O gosto do Zen despertado no Ocidente é, em parte, a sadia reação de pessoas exasperadas com a herança de quatro séculos de cartesianismo: a deificação de conceitos, a idolatria pela consciência refletiva, a fuga da realidade para ater-se ao verbalismo, à matemática e à racionalização. Descartes fez do espelho em que o eu se encontra um fetiche. O Zen o despeça pondo-o em frangalhos.” (Thomas Merton).


Neste instante milhões de seres nascem, milhões morrem. Caem as folhas. As ondas chocam contra as rochas. Bilhões de acontecimentos simultâneos. Efervescência. Mas as limitações dos veículos através dos quais a consciência se expressa dá aos homens a impressão linear dos acontecimentos. Cada um deles é único, instantâneo, e deixa da sua breve passagem um traço como o registro de uma partícula atômica numa câmara de gás. Essa trajetória é o resultado de uma série de encontros. Reflete a marca de uma presença. Tudo está interpenetrado. Reflete a marca de uma presença. Tudo como gotas de um mesmo Oceano.
No poema hindu Bhagavad Gitã, seu personagem central, Arjuna, suplica a Krishna (emanação corporificada sob forma humana do Absoluto) que lhe revele a verdadeira face da Realidade. E então viu:


“Assim como as chamas destruidoras do Tempo,
Contemplo teus dentes poderosos, eretos,
Alinhados nas mandíbulas escancaradas.
Ninguém encontrará abrigo ou misericórdia,
Ó Senhor Supremo de todos os mundos!
Todos, amigos, inimigos, desconhecidos, nós mesmos,
A multidão que passa como um rio,
Vão sendo tragadas por tua imensa boca.”


A visão de Arjuna revela a Realidade tal como é. Nua, sem proteções psicológicas e embelezamentos. É a forma Zen pondo em frangalhos o espelho onde o “eu” se reflete.


Tailândia. Bangkok. Dia 10 de dezembro. 1968. 14 horas. Calor. Num quarto um homem liga um ventilador. Choque? Colapso? Um corpo cai junto com o ventilador. Lá fora, o rio, os barcos continuam a passar rumo ao mercado. Nas lojas, peixes coloridos dão voltas dentro dos aquários aguardando os fregueses. Galos de briga se engalfinham num ringue. A multidão de apostadores grita. Ventilador trabalhando, cortando a carne do homem morto caído no chão. Sangue jorrando.


No final da vida de Thomas Merton, os acontecimentos chocam-se como ondas conflitantes que se fragmentam em milhares de gotículas. Nos mosteiros budistas monges recitam sutras. Outros meditam. Cochilam. Alguém bate à porta do quarto. Ventilador trabalhando. Batidas. Ventilador girando. Porta arrombada. Ventilador desligado. Polícia. Médicos. Padres chegando. Corpo lavado. Corpo vestido. Hábito de monge. Recitação lenta do rosário. O saltério. Murmúrio das preces. As cigarras cantando na tarde que cai. Um caixão envernizado aguarda no aeroporto. Acontecimentos. Caixões com soldados norte-americanos vindos do Vietnã. Misturado a eles um monge ruma ao Leste. O Oceano Pacífico lá embaixo reflete a lua. Os pilotos tomam café e contemplam os mostradores iluminados no painel de instrumentos. Bocejos. Thomas Merton voltando para casa. Acontecimentos. Simples acontecimentos. Oceano. Um novo dia começa a surgir. As ondas voltando para trás. Há 2600 anos um homem sentado sob uma árvore atinge a plena iluminação: o Nirvana. Uma gota transforma-se em Oceano. O Buda, o iluminado, o plenamente desperto, o Príncipe Sidartha Gautama, que tinha abandonado todos os reinos terrenos “via” a configuração do Eterno. Paz suprema. Sente as limitações da palavra para transmitir essa vivência de planos de consciência que o homem comum nem sonha. Tem então a visão simultânea dos acontecimentos. Diante de si a existência é como um lago onde se encontram bilhões de sementes de lótus, que na grande maioria estão no fundo, mergulhadas na lama, apodrecendo silenciosamente para que a vida possa nascer. Outras começam a germinar e procuram vencer a água escura em busca de algo que não vêem, mas que apesar disso as atraem. Poucas se aproximam da superfície das águas. Pouquíssimas romperam a linha divisória e em pleno ar, expostas ao sol, começam a entreabrir as pétalas. Cada uma delas é um ser num estágio diferente de desenvolvimento. Recebendo da luz do sol uma mensagem diferente, apropriada à sua natureza.


As ondas vão indo para frente. Há aproximadamente 2000 anos, um homem morre na cruz. Falava dos pobres de espírito, dos puros de coração. Dos simples, dos mansos. Dos autênticos que verão em si o Senhor. O reino de Deus tem muitas mansões. “Aprendei a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam sabeis que está próximo o verão”. As suas palavras foram registradas na letra fria dos textos. Foram repetidas por muitos. Mas poucos as “compreendem”. Pois compreender é viver em si a experiência. E aquele que vive no verbalismo está escravo dele. É preciso sentir as folhas brotando para termos a consciência de “verão” que se aproxima.

Em todas as religiões encontra-se, mais ou menos mergulhado, um apelo (que chamaríamos Zen) para o abandono do superficial e a busca do essencial.


Thomas Merton sentia-se atraído pelo Budismo e pelas religiões asiáticas, pois sentia a necessidade de um encontro com as raízes que estão além do mero verbalismo. Essas religiões não se julgam exclusivas, nem detentoras da Verdade. São acessíveis e tolerantes em seus conceitos demonstrando uma abertura de consciência que se encontra no Cristianismo primitivo, mas que por força de injunções políticas e sociais foi sendo amortecida na interpretação ao pé da letra dos textos bíblicos. Nada é pior do que a estrutura burocrática, temporal, visando resultados concretos para asfixiar a verdadeira espiritualidade. Merton era um místico e como tal falava uma linguagem que está acima das limitações temporais. Profundamente lúcido tinha a convicção que a maioria dos homens não vive. Movimenta-se apenas. Choca-se ao sabor dos acontecimentos. Nas “Reflexões de um espectador culpado” afirma:


"A sociedade massificada se compõe em realidade de indivíduos que, se entregues a si mesmos, sabem que são zero, e que ajuntados uns aos outros numa multidão de zeros, têm a impressão de adquirir realidade e poder.”


A triste realidade é que poucos sentem o Absoluto, Deus, ou o nome que queiram dar. A existência humana transformou-se numa simples rotina na qual os acontecimentos nos impelem a pensar e agir mecanicamente. O diálogo transformou-se em zumbido de máquinas cada qual girando no seu eixo (o “eu”, engrenado a outras máquinas visando a quê? Agitação. Futilidade. Mediocridade. Imbecilização em massa. Docilidade para que poucos tirem proveito de muitos. Thomas Merton era um crítico mordaz da civilização de desperdício que cultuamos como um moderno Deus. Assim pensava sobre os padrões de vida norte-americanos. A sua atração pelo Zen foi imediata, pois o Zen valoriza a natureza, a humildade, a espontaneidade, a volta a uma autenticidade perdida. A poesia foi fortemente influenciada por essa Escola no Japão. E Merton era um poeta. O Hai-kai, poema sintético com 17 sílabas, dá em leves toques o âmago da experiência do autor. É uma jóia de síntese. Merton, o autêntico, o homem que procurou em toda sua vida ser aquilo que era em essência, em inúmeros trechos de sua enorme bagagem literária revela o mesmo estilo direto de descrição da realidade. Vejam como banais acontecimentos são transfigurados por um tratamento Zen:


“Aurora escura.
Debaixo de algumas nuvens altas,
lastros de vermelho matizado.
Um desenho de roupas estendidas,
de grampos para suspender roupas no varal,
de vultos nebulosos.
Abstração. Não há como captá-lo.
Deixe ficar.”

Ou esta outra que é um verdadeiro hai-kai em sua estrutura psicológica:


“Tarde tranqüila.
Colinas azuladas.
Lírios balançam ao vento.
Este dia jamais voltará.”

O padre Luís, como Merton era chamado pelos trapistas, possuía a visão Zen da realidade que nos cerca. Suas fotografias, seus desenhos, são uma comprovação do mesmo ângulo estético que caracterizam a pintura chinesa e japonesa influenciadas pelo Zen. A valorização do vazio, das coisas insignificantes ao homem apressado que não olha os musgos, os velhos muros descascados, os galhos secos, os objetos marcados pelo uso. A solidão de uma floresta. A plenitude do deserto. Participação. É preciso a todos os momentos cultivar o silêncio como planta tenra, para que possamos encontrar a solidão no meio do mundo. Cada objeto, cada ser, cada instante é um mistério pleno de significação. Debaixo da superfície das coisas está a base última onde elas se encontram. Cada uma delas é um caminho aberto para o encontro com aquele que as sustém em sua grandeza infinita. O encontro é um ato de silêncio. Pois não há participação sem silêncio. Silêncio da fonte que brota no deserto. Do lótus que desabrocha. Da lágrima que escorre. Tudo se resume, então, segundo o Zen, na busca desse silêncio no meio de um Universo de ruídos. A atitude deve ser a da observação pura dos que se sentam e contemplam sem procurar se envolver com os acontecimentos. O Zazen, que é o sentar de acordo com certas regras, é em suma o Zen. Sem ele não é possível atingir o que não se atinge quando vivemos mecanicamente. O simples ato de sentar, que muitos vêem como uma força de meditação budista, é de imenso valor para homens que nunca conseguiram parar no meio dos acontecimentos e são envolvidos por eles, O sentar é a parada em pleno movimento. A inação na ação. A leveza do gesto, o reflexo automático de um lutador de judô, ou de um mestre de espada. A flexibilidade do bambu, a agilidade de um gato. O toque ligeiro de um pintor numa tela de seda deixando o registro de sua passagem para toda a eternidade. É, em suma, plena atenção. Viver o aqui e o agora em plenitude. O mesmo ocorre conosco. É necessário despertar para a grandeza que somos. ACORDAR! MAS COMO É DIFÍCIL. A existência humana transforma-se numa simples rotina de fatos que nos impelem a pensar, agir mecanicamente. Em todas as épocas, os textos de uma tradição verdadeiramente religiosa, que está acima da pura religião maquinal da maioria dos homens-máquinas, chama a atenção da necessidade do homem despertar para a Realidade.
No Katha Upanishad está dito:

"Este é o caminho. Esta é a mente suprema.
Ele está oculto em todas as pessoas.
Por essa razão, não brilha!
Mas é visto pelos grandes videntes.
LEVANTA-TE! DESPERTA!
A senda é estreita como um fio de navalha.”

O absoluto está oculto em todos. Se está oculto é porque inconscientemente não permitimos que ele surja. O homem fechado, o egoísta enrolado em torno de um “eu” ilusório, é como um casulo que ainda não sonha que poderá ser borboleta. E como casulo geralmente morrerá, perdendo a oportunidade da transfiguração. A regra dos monges de São Bento é totalmente autêntica quando no prólogo chama atenção para que:

“(...) abramos os olhos à luz deífica e, de ouvidos atentos, escutemos a exortação que todos os dias, em altos brados, nos dirige a voz divina por estas palavras: se hoje ouvirdes a sua voz, não queiras endurecer vossos corações. E ainda: Quem tiver ouvidos para ouvir, escute o que o Espírito diz às Igrejas. E que lhes diz? Vinde, filhos, e ouvi-me. Ensinar-vos-ei o temor do Senhor. Correi enquanto tendes o lume da vida, não vos atalhem às trevas da morte.”


A luz existe. Ela não tem culpa se os homens continuam de olhos fechados. A abertura dos mesmos depende do esforço de cada um. Façam um exemplo real. Fechem os olhos. Sintam a escuridão. Imaginem o que será o mundo de um cego de nascença que nunca tenha sentido a diversidade das formas e cores. Abram os olhos e vejam como se estivessem vendo pela primeira vez. O mesmo poderá ser feito com todos os outros sentidos. Todos eles são portas de comunicação com o Absoluto. Depende somente do uso que deles fazemos, mecânico ou desperto, para que tenhamos a consciência da luz deífica da exortação que em “Altos brados” a voz divina nos apela. Sintam a importância do Aqui-e-Agora, do instante mágico onde o tempo e espaço se fundem numa presença sensível na advertência: “correis enquanto tendes o lume da vida...”. A maioria dos homens infelizmente passam pela vida como mortos. O Zen-budismo procura despertar o homem o mais rápido possível, usando para isso métodos pouco convencionais, pois nada é mais urgente, mais vital, do que esse despertar. É difícil dizer o que seja antes do acontecimento. Tão difícil como transmitir em palavras a experiência da água fresca escorrendo numa garganta sequiosa. É a mesma razão que levou Merton em “A Vida Silenciosa” a exclamar:

“A realidade significada pelo conceito é um mistério. Pois concretamente, na terra ninguém sabe com precisão o que seja “buscar a Deus” enquanto não tenha se colocado em marcha para achá-Lo”.


Só aqueles que sentiram essa Realidade (não importa o nome) podem falar dela por experiência direta. Os outros são apenas seguidores, copiadores, repetidores em bilionésima mão do que não sentem.


O zen busca a verdade por trás das formas, a luz por trás das sombras. Não é uma religião fechada como Merton bem sente. É sim a Verdadeira Religião que está presente em todos os caminhos que levam o homem ao encontro consigo mesmo. Essa religião é o retorno simbólico do filho pródigo ao lar paterno de onde nunca se afastou. É a consciência da inexistência de qualquer problema na configuração de acontecimentos que nos envolvem. É o peru preso no círculo de giz ganhando a consciência da dimensão da liberdade. É a consciência da inexistência dos muros que antes nos isolavam e que desapareceram por completo. Tudo se resuma no desaparecimento do problema. Analisemos a palavra “problema”. É um conjunto de sons que expressa um estado psicológico descrito em outros idiomas por sons diversos. O som não nos interessa, mas aquilo que representa. Vivemos obcecados por essa palavra. Analisando-a friamente veremos como ela existe no nosso cotidiano. Essa verdadeira fixação na existência de problemas, a consideração de que tudo em si é um problema priva o homem de sua liberdade inata de Ser. Um problema é uma configuração de acontecimentos instantâneos. A cada instante a configuração muda, pois novos eventos são incluídos ou sobrepassados. Entretanto, a grande maioria das pessoas não vê as configurações dentro de um contexto mais amplo no qual estão harmoniosamente inseridas. Por exemplo, quando observamos uma coisa do ponto de vista das partículas subatômicas que as compõem, ela se esvanece. Some-se como fumaça. O aspecto concreto da realidade transmuta-se a resta somente uma “mancha”, verdadeira nuvem de acontecimentos em mutação constante. As “leis” que se aplicam são o princípios da indeterminação de Heinsenberg, a física de Einstein, as m atemáticas não-euclidianas. Há uma total modificação do “cotidiano”. O mesmo ocorre, os “problemas” são outros, quando a coisa é observada do nível molcular. À medida que mudamos de escala de observação criamos novos problemas e novas leis. Sente-se que o “problema” cessa de existir quando é visto numa configuração acima da anterior, então aparece unido numa estrutura maior e cessa de existir.
Compreendendo isso, o Zen trata os problemas de uma forma direta. A própria palavra Buda é um problema para muita gente que se rotula Budista. Da mesma forma a palavra Cristo para os Cristãos. Ou a palavra Deus para os deístas. Deixem de lado o rótulo que nos separa, que não diz nada, e mergulhem na raiz que nos une. Certa vez, um discípulo ardoroso perguntou a seu mestre sobre o Buda e recebeu como resposta:

“Limpa primeiramente a tua boca desta palavra!”

É preciso que limpemos a boca e a mente de puros conceitos, sons sem significação para que possamos encontrar aquilo que não se encontra nas palavras. Aquilo que tem levado os homens a se debaterem uns contra os outros em discussões sem sentido. Thomas Merton possuía raro senso de humor, que é uma característica Zen. Assim descrevia ele o choque entre o intelectualismo e verbalismo:

“Pontífices! Pontífices! Somos todos pontífices fazendo arengas uns para os outros, agitando nossos báculos uns para os outros, dogmatizando e ameaçando com anátemas!”


O Zen é muitas vezes rude na sem-cerimônia com que trata as coisas “sagradas”. Um monge cansado de meditar em silêncio, a fim de alcançar o Buda, procura o instrutor Ummon desesperado com seu fracasso. A resposta é seca: “Ele está no estrume”. É a única forma para acabar com as arengas. Para muitos, falar desta forma “desrespeitosa” de um homem perfeito que alcançou a suprema iluminação, de uma flor da raça humana, pode parecer uma profanação. São, entretanto, recursos usados para despertar o homem. Para produzir a visão do que está além da forma verbal. Enquanto o homem não se libertar dessas “prisões”, jamais poderá encontrar o que não se encontra quando se procura. A própria idéia da meta, do alvo, já é um impedimento ao encontro. A “procura” é um ato de plena humildade, de abertura, de libertação de tensões acumuladas no consciente e no inconsciente. Os conceitos mais tradicionais têm de ser revistos sob uma luz da compreensão profunda. Pecado, virtude, moral, castidade, bem, mal são muitas vezes gaiolas que escravizam o homem.
Mestre Taisen Deshimaru escreveu um livro chamado Vrai Zen. É um instrutor que vai direto ao ponto. Conta ele a seguinte história a respeito do “problema” da castidade:
“No tempo de Buda, viviam dois monges, modelos de todas as regras. Dois exemplos de virtude. Cabeças imaculadamente raspadas, mantos sempre bem cuidados. Cumpriam todas as duzentas e tantas normas prescritas pela disciplina. Certo dia, quando um deles procurava a cidade para esmolar, vê-se diante de uma bela monja e não resiste à atração. O desejo reprimido o inflama. A tranqüilidade da floresta, o calor do dia, o perfume das flores falavam mais alto do que todas as regras. E o monge cedeu. Pela força, submete a jovem. O outro, que vinha logo atrás, a tudo presencia, oculto pela folhagem, e sente-se tomado pela mesma paixão. E procede exatamente como o primeiro. Depois afastam-se juntos, contritos, olhando o chão, como manda a regra, mas sentindo-se arrasados pela ação cometida. A jovem desesperada procura a morte no rio. Os monges torturados pelo remorso vão à presença do virtuoso Upali, encarregado pela Disciplina da Ordem monástica. Fazem a plena confissão dos crimes e são expulsos da comunidade. Seguem então pelos caminhos da floresta cada vez mais mergulhados em seus problemas, até que diante deles surge Vimalakirti, o discípulo iluminado de Buda. É todo compaixão e sabedoria. Uma verdadeira estrela irradiando serenidade por todos por todos os quadrantes. Ouve a trágica notícia e aconselha-os: “A vossa falta é a de ainda pensar no fato passado. Não o façam reviver pensando nele. Concentrai-vos no Presente e renascei a cada instante! Continuai no caminho que escolhestes. Concentrai vossos esforços para que possais atingir a Verdade. Os monges seguiram o conselho e dentro em pouco tornaram-se seres perfeitos. Se nada tivesse ocorrido, se os “acontecimentos” momentaneamente formados não os tivessem levado à ação cometida, continuariam sem dúvida presos às idéias das regras, da virtude, e permaneceriam adormecidos no conceito da virtude. Na palavra. Pois virtude é muitas vezes apenas um conforto para não agir. O crime, o pecado fizeram com que atingissem pela dor à Sabedoria. As cadeias de ouro ou de ferro são, em última análise, apenas cadeias."

Thomas Merton, o autêntico, tinha a plena consciência da relatividade dos padrões de julgamento. Sentia, como ninguém, as aves de rapina que estão no título de seu livro, e como vivemos nos alimentando da sua putrefação, adorando a morte quando a vida eterna é nosso Ser. Ocultando sob palavras de Cristo, Buda, Tao, e tantas outras, o mistério vivo. Desesperava-se com o pieguismo. É autêntico quando explode na sua revolta contra o formalismo:

“Em certos momentos, vemos um raio do Zen no meio da Igreja! Deveria, na realidade, haver muito mais. Mas nós o frustramos, raciocinando demasiadamente sobre tudo que há.”

Na sua vocação monástica, viu no monge um homem desperto ao mundo, mas ao mesmo tempo preservando o fogo vivo da vida interior. Sentiu o perigo de uma Igreja voltada apenas para aspectos sociais, políticos, econômicos. Constituído de monges homens comuns, cotidianos, impelidos como a massa anônima da humanidade-manada. Também não admitia o homem que se isolasse numa torre de marfim, quando à sua volta o sofrimento e o ranger de dentes cada vez mais se avolumavam. Vai além, ao anunciar:

"Temos de ter a humildade para, em primeiro lugar, tomar consciência de nós mesmos como parte da natureza. Negá-la resulta apenas em loucura e crueldade. Pode-se, sem dúvida alguma, ser parte da natureza sem ser o amante de Lady Chatterley”.

Como é imensamente difícil ser natural novamente! Redescobrir a Verdade, a autenticidade que existe no centro do Ser. Atingir o puro despojamento, a pobreza, a humildade, que nos permitem a humanização. É um desaparecimento, um vazio-pleno. Uma vivência. Um fato extraordinariamente significativo são as últimas palavras proferidas por Thomas Merton numa conferência feita no encontro de religiosos de Bangkok. Terminada a enunciação do tema “Monaquismo e Marxismo” despediu-se dizendo:

“And now I will disappear.”
(*E agora desaparecerei).

O resto é conhecido. Calor. Num quarto um homem liga um ventilador... Choque? Colapso? Um corpo cai. Acontecimentos. Sangue. Gotas. Gotas. Gotas... Uma gota torna-se o Oceano.
(Escrito por Murillo Nunes de Azevedo)
Prefácio do livro "O Zen e as aves de Rapina", de Thomas Merton.
Para saber mais sobre quem foi Thomas Merton, veja no link: http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Merton

sábado, janeiro 27, 2007

Wu-Wei: O Fazer pelo Não-Fazer

O Tao e o Zen não são diferentes. Eles diferem somente quanto a suas origens. A filosofia do Tao surgiu na China antiga com o grande mestre Lao-Tzu. E o Zen nasceu com a transferência da flor das mãos de Buda, para as mãos de Mahakashyapa. Mas ambos dizem respeito à mesma Verdade já revelada: Aquilo que não pode ser expresso pelas palavras... Àquela única coisa que É. E é justamente pela impossibilidade de Isto não poder ser expressado que os mestres preferem dar ênfase ao silêncio, e não dizer nada: pelas palavras você não pode alcançar. Palavras só ajudam até um certo ponto. Assim, o Ser muitas vezes é retratado por palavras que indicam passividade e até mesmo conotações negativas. Por exemplo: muitos mestres dão ênfase ao Ser através da palavra "Não-Manifesto". A expressão Não-Manifesto tenta, através de uma negativa, expressar aquilo que não pode ser falado, pensado ou imaginado. Ela aponta para o que É quando diz o que não é. Logo, dizer Não-manifesto significa se referir ao Ser. Esses jogos de palavras, positivos e negativos, tentam fazer com que você não se prenda a nenhuma destas expressões e nem comece a acreditar nelas, pois elas não passam de indicadores, de setas apontando para o alvo. Assim, não se agarre às expressões positivas, nem às negativas... o caminho é o do meio. O caminho é aquele que não pode ser constatado, aquele que não se pode ver. E o Taoísmo diz: "Não faça!". Ele gosta muito da expressão "não-fazer". A não-ação constitui a força criadora de toda atividade, de toda a existência. Não há como explicar a Existência fundamentando-a em princípios e teorias -- a começar pela já-existência deles. A Existência só pode ser "explicada" (compreendida) a partir da Não-Existência. E quando alguém aprende a perceber/contemplar ambos, aí é possível adentrar o caminho do meio: o ponto que está exatamente no centro, entre o existir e o não-existir. Então a existência e a não-existência tornam-se UM só. E assim se sucede com o Fazer. O verdadeiro fazer só pode ser compreendido a partir do não-fazer. Este "não-fazer" corresponde ao "sentar sem nada fazer" do Zen.

No Taoísmo se diz "wu-wei".Conseguir se entregar ao momento presente - de forma total - é o que é preciso para começar a vivenciar o "fazer pelo não-fazer". O homem não precisa se preocupar com problema algum que possa vir a surgir eventualmente. Todo problema é coisa da mente. Entregue-se no momento do fazer. Ao fazer arroz, você não tem que fazer um arroz delicioso, você não tem que agradar quem irá comer, você não tem que acabar rápido para fazer a salada. A única coisa que você tem é não ter de se preocupar com nada... é “não ter que” nada.A mente acha que ela precisa "fazer um arroz delicioso" e agradar alguém. Olhe quanta energia a mente dessa pessoa está desperdiçando! Ela poderia, simplesmente, ir lá e fazer o arroz. E, no momento certo, em cada instante do tempo presente, todas as questões que fossem surgindo (inclusive a intenção de deixar o arroz delicioso) seriam naturalmente cumpridas... sem esforços... sem preocupações... sem nada! Tudo que é preciso é apenas tomar a decisão de fazer o arroz... ir lá, e fazê-lo.O ser humano está na ilusão de que ele é separado de tudo o que ele pode ver, sentir, tocar, ouvir, cheirar, etc. A ilusão ocorre porque o homem não acredita no AGORA; não consegue perceber o momento presente, em sua plenitude e, por isso, vive preso em sua mente. A mente não acredita no fácil; é bom que tudo seja difícil para ela; ela gosta de muitas complicações. Ela não gosta de ficar sem fazer esforço, porque senão ela começaria a sumir. Ela é muito egoísta. Ela cria muitas dificuldades e sofrimentos para você e para ela mesma -- mas pelo menos assim ela pode continuar existindo.

Uma vez que alguém alcance este "fazer, não fazendo", essa pessoa se encontra. Ela se sente realizada com seja lá qual for a atividade que ela esteja desempenhando. "Fazer arroz" é apenas um exemplo. Conseguir manter esse estado em qualquer atividade que você esteja fazendo, vai lhe trazer uma grande realização. Você conseguirá se divertir com qualquer situação que você esteja vivenciando -- você pode estar satisfeito no início, durante, ou no final dela. É muito melhor, pois a satisfação não é encontrada apenas no final da atividade, quando o objetivo dela é alcançado. Alcançar objetivos é coisa da mente. E, para ela alcançá-los, muito sofrimento será criado para você.

História Zen: Uma cidade havia entrado em guerra e tinha sido devastada pelos inimigos. Toda população havia fugido, pois o comandante do exército inimigo estava se dirigindo para lá. Somente um mestre zen não fugiu, permanecendo na cidade. Quando o exército inimigo chegou, viu que não havia ninguém, exceto aquele pobre senhor que estava sentado no meio da cidade, observando tudo o que havia acontecido. O comandante se aproximou do velho e lhe disse: "Ei velho, você o que você ainda está fazendo aqui? Por que não abandonou a cidade?"... e o velho nada respondeu, apenas sorriu ao comandante. Este, vendo que o velho não se incomodava com nada, lhe disse: "Você é muito corajoso por estar aqui. Você tem idéia de quem sou eu?... Eu sou aquele que pode lhe tirar a vida a qualquer momento!". E o velho lhe respondeu: "E você tem idéia de quem eu sou? Eu sou aquele que pode ter a vida tirada por você, a qualquer momento.

"DESAPEGO DE TUDO. É nisso que consiste essa pequena historinha. Se você não estiver apegado, você pode enfrentar qualquer situação sem preocupação alguma. Diante de uma pessoa assim, até um comandante inimigo é um derrotado. A idéia do apego existe, porque a mente faz você achar que você é alguém, com idéias, conceitos, pensamentos, conhecimentos através dos sentidos. Mas até mesmo os sentidos não podem captar quem você realmente é, e eles o enganam. Você tem a idéia de que você é alguém porque sua mente acredita em muitas coisas. Mas a verdade é que você não é NADA. Você é NADA; o arroz delicioso é NADA. É por isso que, quando você está totalmente focado no momento presente, você pode ser o arroz, e o arroz pode ser você. Da próxima vez que for fazer o arroz, ou qualquer outra coisa, experimente fazê-lo com o mesmo espírito desapegado daquele mestre zen. Esteja receptivo a esse estado de espírito e diga ao arroz: "Você sabe quem sou eu? Eu sou aquele que está fazendo o arroz" E você sabe quem é o arroz? Ele é aquele está sendo feito por você. Ambos vocês estarão se completando um ao outro. Vocês estarão se complementando; e estarão em tal harmonia que não haverá mais você e o arroz: apenas a atividade de você estar fazendo o arroz; e do arroz estar sendo feito por você... tudo será uma coisa só. Não se iluda: é somente a mente que faz você perceber que você é uma pessoa (um cozinheiro, um cientista, um professor, um médico, um guerreiro, um pobre velho etc.). Aquele mestre zen, não se percebia como um homem velho que havia ficado numa cidade destruída -- Ele não era aquilo. A sua mente pode dizer que ele é um velhinho que ficou para trás; mas ele não é isso. Naquele momento, aquele homem era alguém que poderia ter a vida tirada pelo comandante a qualquer momento; só isso,e nada mais. Depois que o comandante fosse embora, ele não seria mais "alguém que poderia ter a vida tirada a qualquer momento"... ele seria outra coisa condizente com o momento presente dele. É importante compreender esse ponto.Portanto, não tente definir nada. Sua mente pode dizer muitas coisas, mas a Verdade sobre você está sempre dentro do seu AGORA. Dentro do seu AGORA você é completo com o que quer que seja que você esteja fazendo; seja lavando o arroz, seja estando à beira da morte. Alcance a mesma profundidade da percepção daquele mestre zen sobre quem você é, e você poderá experimentar o verdadeiro estado de desapego. Ele lhe conduzirá diretamente ao wu-wei: o fazer pelo não-fazer. Isso é algo que só pode ser vivenciado AGORA. Preste atenção nos momentos presentes pelos quais você passa, instante a instante. E você se encontrará. Mais do que isso: você saberá quem você é. Sua vida será muito mais leve... muito mais satisfatória... muito mais bonita. A vida é bela! Todo instante é belo. Você pode se sentir realizado a cada instante que passa... e viver toda a sua vida dessa forma.

Apenas lembrem-se de uma coisa: Este não-fazer a que o Tao se refere é muito genuíno. Ele é um verdadeiro Não-Fazer. Assim, você nada pode fazer com relação a ele. E se você tentar praticá-lo, se você tentar praticar o não-fazer, você estará FAZENDO. Eis aí o que deixa tudo bagunçado para aquele que está tentando alcançar a Verdade. Mas essa bagunça, este paradoxo, só pode ser superado se você puder colocar toda a sua totalidade e espontaneidade no seu viver.
Espontaneidade significa deixar-se ser e agir de maneira natural. É permitir que tudo ocorra por si só, de modo que você não interfira em nada. Ao invés disso, você aprende a confiar nAquele que criou essa existência e deixa tudo aos cuidados dEle. Nessa entrega, você relaxa e a espontaneidade surge. Através da espontaneidade e de sua constante atenção nas coisas do dia-a-dia, você aprenderá o segredo de Não-Fazer coisa alguma autenticamente. E tudo o mais virá por acréscimo. Por meio do genuíno não-fazer, tudo é feito.

terça-feira, janeiro 16, 2007

O Tao

A palavra "Tao" significa Caminho. Significa Caminho sem nenhum objetivo; simplesmente o Caminho. Esse é o significado da filosofia taoísta: que não há objetivos; que não estamos indo a lugar nenhum. Que estamos indo apenas para estarmos aqui. Se você conhece o Caminho, conhece o objetivo, pois o objetivo não está no final do Caminho, mas ao longo de todo o Caminho; a cada momento e a cada passo ele está presente. Estar no Caminho é estar no objetivo, por isso a mensagem Taoísta não fala sobre Deus, não fala sobre o nirvana, iluminação... nem nada disso. A mensagem do Taoísmo é muito simples: "Você precisa encontrar o caminho". Toda a mensagem taoísta encontra-se sintetizada num pequenino livro chamado "Tao Te Ching", o único livro escrito pelo fundador do Taoísmo, Lao Tzu. Ali é que consta todo o ensinamento acerca de como seguir o Caminho.


Lao-Tzu atingiu sua iluminação depois de muito tempo buscando a Verdade em livros, meditações... e nunca conseguiu alcançar. Um dia ele, frustrado, desistiu de alcançar a iluminação e retomou seus afazeres diários, simplesmente voltou a ir viver sua vida. Até que um dia, Lao Tzu estava sentado sob uma árvore e uma folha tinha começado a cair. A folha estava caindo lentamente, em zigue-zague, com o vento, e ele a observou. E não havia pressa para a folha cair no chão. Lao Tzu apenas observava seus movimentos. Se o vento soprava para o norte, a folha seguia para o norte; e se era para o sul, então para o sul ela rumava. A folha deixava-se levar pelo vento... e Lao Tzu apenas olhava. A folha foi caindo no chão e ficou parada ali. E, à medida que ele observava a folha cair e se acomodar no chão, algo se acomodou nele. A partir desse momento ele deixou de ser um homem comum e compreendeu que: "Os ventos sopram por conta própria e a existência é quem toma conta". Foi assim que ele conseguiu sua iluminação.

Enquanto Lao Tzu lutava para se tornar iluminado, ele não alcançou. É tolice o ser humano lutar contra a natureza. O Tao é entrega... é ausência de esforço. Isso não quer dizer que ele -- o esforço -- não seja necessário. Inicialmente o esforço é requerido. Você faz um grande esforço para viver de acordo com a Verdade; então, aos poucos, entende que seu grande esforço ajuda um pouco, mas dificulta bastante. Daí o esforço começa a ser abandonado. você tenta arduamente viver de acordo com o Tao e, pouco a pouco, começa a compreender que nenhum esforço é necessário para viver de acordo com a natureza... do contrário o próprio esforço continua caindo como um peso sobre você. E estes são alguns dos princípios do Tao: a naturalidade, a espontaneidade, a confiança na existência, a entrega, a paciência, a simplicidade, a passividade, a não-violência, a humildade, a suavidade, o não-fazer... e muitos outros. Todos eles estão implicitamente ou explicitamente escritos no Tao Te Ching... e são usados como referência para andar no Caminho.

O primeiro capítulo do livro de Lao Tzu é um dos mais relevantes. Nele está sintetizado toda a filosofia taoísta, e é entitulado "A Compreensão do Incompreensível (o Tao)". E é sobre este capítulo de que se trata este post.

"O Tao que pode ser mencionado não é o verdadeiro Tao.
Nomes podem ser mencionados, mas não o nome eterno.
A origem do Céu e da Terra está na ausência de nomes.
A "Mãe" de todas as coisas também não pode ser nominada.
Mesmo oculto, o Tao exerce sua influência.
Devemos olhar esta influência como Sempre-manifestada.
E quando é manifestada, devemos olhar para outro lado.
Estes dois fluem da mesma fonte.
Embora tenham nomes diferentes, ambos são chamados de Mistérios.
E o Mistério dos Mistérios, o Tao, é a porta de tudo o que é essencial."
(Tao Te Ching - Capítulo 1)

Todas as linguagens são inúteis, pois a verdade não pode ser expressa. A iluminação não é algo que você possa atingir; não é algo que você possa compreender. A verdade permanece por trás de tudo o que existe; ela não pode ser vista, você não consegue fazer ela caber dentro do seu entendimento. Se você conseguisse, isso signficaria que você permaneceu por trás; somente assim você pôde vê-lo. Mas, ainda assim, o que permaneceria por detrás de você, então? Existe uma presença misteriosa que serve de suporte para a existência. Essa presença está em todos os lugares. Se um lugar existe, essa presença está lá, atuando por detrás desse lugar. E se houver um lugar onde ela não está, tal lugar não existe. assim, olhe para o fenômeno do seu entendimento; ele existe... você é capaz de ver, analisar, aprender, assimilar e compreender... tudo isso é um fenômeno que ocorre em você. Ele existe. Assim, olhe para esse fenômeno e responda: se o seu entendimento existe, então o que há por trás dele? E o que dá suporte à existência do seu entendimento? Ele não existe por si só. Ele precisa de algo maior que o apoie... do contrário, ele seria o apoio e também seria impossível vê-lo. Algo precisa permanecer por de trás... algo Primeiro. Isso é o Tao; isso é Deus; isso é o Ser... ou, então, qualquer outro nome que você preferir chamá-lo.

O Tao é incompreensível; ele também é inexpressível. Ele existe e está aqui, bem agora. Aqueles que O conhecem não conseguem expô-lo. O Tao é um, mas no momento em que ele se torna manifesto, precisa se tornar dois. A manifestação precisa ser dual, precisa se dividir em duas. E no momento que alguém abre a boca para proferí-Lo, essa pessoa transporta o Tao do reino não-manifesto para o campo das palavras. Assim, o que quer que seja dito perde todo o sentido.

Ninguém pode falar, verdadeiramente, sobre a verdade. Ninguém pode falar sobre o Tao, nem sobre o Zen, nem sobre Deus, a iluminação ou o êxtase. Se isso fosse possível, você já estaria em êxtase simplesmente ao ler estas poucas linhas. Por mais que se fale a respeito do Tao, ele não pode ser dito... algo sempre permanecerá por trás. E não há nada que permaneça por detrás dele, porque somente o Tao existe por si mesmo, eis tudo.

Isto que permanece por detrás de tudo é a verdade. A verdade nunca surge na existência, nem nunca desaparece da existência. Ela nunca vem, nem nunca vai. Ela permanece, sempre. Ela está no começo e no final... e, no entanto o começo e o final não estão em lugar algum. Tudo isso porque a verdade simplesmente É.

E tudo o que provém do Tao também é um mistério. A existência, em sua forma não-manifesta, é um mistério e jamais poderá ser conhecida. E a existência em sua forma manifesta também é um grande mistério. Se você olhar atentamente para uma árvore, você perceberá que a árvore não é uma árvore. O que é a árvore, então? Ela é um mistério. A palavra "árvore" é apenas um nome, de modo que a árvore jamais deixará de ser o que ela é se ela o perder. Dê à arvore o nome que você quiser, ou então lhe retire todos os nomes... e ela estará lá, sendo o que quer que ela seja. Assim, uma árvore não é uma árvore... uma rosa não é uma rosa. Toda a existência é um mistério.

O não-manifesto dá origem ao manifesto... e o manifesto completa o não-manifesto. Ambos não são contraditórios, eles são complementares... cada um exercendo a sua influência sobre o outro.
Este capítulo do Tao Te Ching ensina uma excelente forma de meditação: Olhe atentamente para essa existência! Ela não pode existir sozinha, por conta própria. Algo Maior tem de estar atuando por detrás dela. É na vastidão infinita do não-existir que a existência se apóia. O não-manifesto está influenciando a existência manifesta. É isso que Lao Tzu diz: "olhe para a existência e sinta a não-existência por detrás dela. E a seguir faça o caminho inverso, olhe para a não-existência e veja a relação que ela tem com a existência."

Com uma persistente repetição dessa meditação, você estará olhando para os dois lados. E chegará um momento que, de tanto olhar para esses lados contrários, você conseguirá perceber o ponto onde a existência e a não existência se fundem: exatamente no centro. O centro é a fonte de onde flui o ser e o não-ser. Esse ponto é a porta. Neste ponto está o Tao. Esse ponto nulo é todo o significado da espiritualidade, é toda a espiritualidade. É ali que mora Deus.

Tudo é UM e só há este UM. A palavra "Universo" representa exatamente esta idéia: A de que, na existência, só há uma única coisa... um único VERSO. A Vida constitui um único verso; não há doi versos, mas apenas um. Além dele, nada mais há. A dualidade é uma tremenda ilusão e pode ser transcendida. E quando você alcança a transcendência as polaridades opostas revelam-se como complementares e fundem-se em algo que não pode ser nominado. Se só há UM, então quem é o outro que vai estar lá para nominá-lo? Se o Universo é apenas UM, então quem mais vai estar lá para observá-lo ou analisá-lo? É impossível investigá-lo. É como se, sem a ajuda de um espelho, você tentasse olhar para seus próprios olhos... impossível.

O Universo é insondável. E se você o estiver sondando... é por que você ainda está na dualidade; você ainda permanece na ilusão de que você é o sujeito que está observando a Vida como um objeto. Se quiser conhecer realmente o Universo, precisa se esforçar para se tornar uno com ele. A gota de água que você é precisa cair e se dissolver no imenso oceano que o Universo é.

Conhecer a Deus é possível; mas é um acontecimento tão supremo que, mesmo quando você O conhece, ele permanece desconhecido. Há um belo comentário de Osho, falando que:

"Mesmo quando você conhecer Deus, você não será capaz de acreditar que O conheceu. Isso é o que eu quero dizer quando digo que Deus é um mistério. Desconhecido, Ele permanece incognoscível. Conhecido, Ele também permanece incognoscível. Sem ser visto, Ele é um mistério.Visto, Ele se torna um mistério ainda maior.Ele não é um problema que você possa resolver. Ele é maior do que você. Você pode dissolver-se nele, você não pode resolvê-lo". (OSHO)

Sim, você não pode resolver o quebra-cabeça que Deus é.
Você é menor do que a Realidade, ou a Realidade é menor do que você?
Essa pergunta é de grande importância, porque, se você pudesse resolvê-lo, se você pudesse compreendê-lo, então você seria maior do que Ele. E não é assim que é. Por que, então, não aceitar as coisas como são? Paradoxalmente, quando você O aceita, você o conhece.